sábado, 19 de abril de 2014

CONTOS diVINO: BODAS, VINHOS E AMOR

LE VERRE DE PORTO (1884) DE JOHN SINGER SARGENT
 
           
            A vida está sempre nos enviando mensagens simples. Tão simples, na verdade, que raramente as notamos. Esquecemo-nos de que o simples é poderoso. Após algumas horas de viagem de San Francisco para Califórnia, cheguei ao Vale de Santa Ynez, que faz parte do condado de Santa Barbara, pois meus pais estavam comemorando as Bodas de Ouro, ou seja, cinquenta anos de casados. Eram notáveis produtores de vinho da região, e embora tenha crescido em meio ao cultivo do vinho, nunca me interessei propriamente dito pelos vinhos; optei por seguir minha carreira de advogada.
            A comemoração foi no restaurante Bouchon em Santa Barbara. O ar festivo e os vinhos das melhores safras dos meus pais deixavam o ambiente ainda mais alegre. Meus pais estavam radiantes de tanta alegria; juntos irradiavam uma beleza singular e eram muito amados na região. Eu olhava aquilo tudo boquiaberta, pois tinha me separado já pela segunda vez e ficava me perguntando, como é que eles conseguiam estar casados há cinquenta anos?
            De repente, meu pai que estava na mesa conosco foi se encaminhando lentamente para o centro do restaurante, após alguns gestos pedindo silêncio, todos os convidados estavam com os olhos fixos nele, começou a falar:
 
            - O enólogo é como um poeta, mas, em vez de montar versos com palavras, utiliza uvas. Durante a minha vida toda e da minha esposa, utilizamos uvas. Hoje, quando comemoramos cinquenta anos de casados, gostaria de utilizar palavras.
 
            Um vento frio vindo do oceano Pacífico atravessou o restaurante, enquanto suas palavras ecoavam.
           
            - Sabem o porquê as pessoas se casam? Porque precisamos de uma testemunha para nossas vidas. Há bilhões de pessoas no mundo, e que importância tem a vida de cada pessoa de verdade? Mas num casamento sério, você promete se importar com tudo, as coisas boas e ruins, as coisas terríveis e as coisas comuns, com tudo, sempre, todos os dias. Você diz para o outro: ‘A sua vida não vai passar sem ser notada, pois estarei aqui para notar. Sua vida não ficará sem testemunhas, pois eu serei sua testemunha’.
           
            Minha mãe ficou enrubescida. Mas em seus olhos notavam-se uma alegria indescritível com a tamanha coragem e palavras de papai. Após alguns segundos, ele continuou:
 
            - O amor é uma viagem para dentro de nós mesmos, em busca de respostas que nos revelem o que está certo conosco ou errado, mesmo que o outro esteja sendo desleixado com o nosso amor. Pois, amar é comprometer-se sem garantias; entregar-se completamente, com a esperança de que nosso amor produza amor na pessoa amada. Nisso amigos e amigas, sou o homem mais sortudo do mundo, pois ao lado da minha esposa: Mary S. Smiths, durante esses cinquenta anos de casamento e espero que muitos mais venham – encontrei a felicidade. Um brinde – ao nosso amor e união!
 
            Taças e palmas eclodiram por todo o salão do restaurante, enquanto meu pai voltava para a mesa onde estávamos. Chegando próximo a mamãe, abaixou-se e a beijou.
            A música começou a tocar e casais dançavam na pista de dança, meu pai perguntou como iam as coisas, lhe informei prontamente sobre tudo, ao que ele me disse:
 
            - Disso eu já sei minha filha, que vai tudo bem no seu trabalho, mas gostaria de saber como anda na verdade o seu coração?
            - Esse anda as migalhas pai. A separação com John foi terrível e muito desgastante para mim emocionalmente.
            - Eu sei Virgínia, mas você precisa se permitir mais. Encontrar outra pessoa e tentar novamente. Afinal, já se passaram sete meses. Os sábios diziam que só se cura um amor perdido, com outro novo amor. Olhe aquele rapaz ali, da mesa ao lado, ele não tira os olhos de você. Vá se divertir. O divertimento é uma arte. Divertir-se é fazer o melhor com aquilo que nos é disponível. Diversão não significa entretenimento sofisticado; divertir-se é sentir-se vivo no momento. A diversão é simples, e todos nós precisamos dela filha.
 
            Não demorou muito e já estava dançando no salão com aquele jovem rapaz da outra mesa que tanto me olhava.
 
             Depois desse dia – decidi me divertir mais e ser feliz!
           
***

1 comentários:

  1. Elaine Cristina,

    Lindo conto , na medida certa. Beijo

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