sábado, 10 de março de 2018

CRÔNICAS AVULSAS: É AMOR QUE SE FALA NÉ?



O BEIJO (1907)
 GUSTAV KLINT


A sabedoria hebraica através do midraxe hagadá* diz que Deus criou Eva a partir do lado de Adão e não de sua costela. Em hebraico se usa a palavra zela que significa propriamente lado e não costela. É uma metáfora para significar que Eva foi tirada não da cabeça de Adão, para ser sua senhora. Nem dos pés, para ser sua escrava. Mas do seu lado, do lado do coração, para ser sua companheira e uma unidade.


Eles acreditavam também que originalmente o ser humano era simultaneamente masculino e feminino. E ao mesmo tempo homem e mulher. Num mesmo e único corpo, tinha rosto e aparelho genital masculino na frente e feminino atrás. Contudo, por causa da maldade de ambos: homem e mulher, Deus cortou este ser ao meio. Assim se separaram o homem e a mulher, cada um com seu respectivo corpo. 

Por isso, homem e mulher vivem até hoje separados. Mas, por uma paixão inata, eles estão incansavelmente à procura de sua respectiva cara-metade. Sentem-se atraídos um pelo outro. Apaixonam-se mutuamente. Enamoram-se. Amam-se. E, por fim, se casam. Quando se unem amorosamente, fundem-se um no outro. Tornam-se novamente uma só carne. E assim refazem o projeto originário de Deus. 

Contudo, o que poderíamos dizer sobre o amor em pleno século XXI? Muitas coisas decerto – muitos encantos e desencantos alguns poderiam dizer. Outros, que suas vidas amorosas dariam um autêntico bestseller. Porém, hoje queria refletir sobre o que a Psicologia e seu olhar têm a dizer sobre o tema?

O fato psicológico é o mesmo: todos nos sentimos incompletos; uns buscam a completude tentando se unir a outras pessoas ou coisas que os cercam, enquanto outros tratam de encontrar a unidade procurando se fundir com o todo do qual um dia viemos. Pascal disse: “Todos os homens procuram ser felizes; isso não tem exceção... É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar...” Pois bem, e quem não deseja ser feliz no amor? A busca por todo tipo de felicidade é a coisa mais bem distribuída do mundo.

Quando estamos desacompanhados, parece que alguma coisa nos falta. É como se nos sentíssemos incompletos em nós mesmos! Não deixa de ser um tanto estranho que criaturas adultas e auto-suficientes possam sentir, quando sozinhas, que lhes falta uma parte. Não nos sentimos como criaturas inteiras, completas. Vivemos um estado de permanente busca de completude, condição que, como regra, seria encontrada por meio do acréscimo que algo nos é exterior. Temos sempre a impressão de que algo ainda nos falta e pensamos que atingir certos objetivos determinará em nós a busca da sensação de inteireza. O mais comum é sentirmos que a plenitude será alcançada por meio da aliança com outra pessoa, detentora de todas as “partes” que acreditamos não existirem em nós.

Não fomos treinados para pensar profundamente sobre nossos sentimentos. Acredito que tem mais chances de vingar um amor que tenha a aproximação de dois inteiros e não a fusão de duas metades. Logo, melhor será estabelecer relações efetivamente interpessoais aqueles que estiverem em condições de se reconhecer como unidades, se aceitar como criaturas essencialmente solitárias, cujo modo de ser e de pensar não serve para avaliar as outras pessoas. O aparente paradoxo de que o indivíduo que se basta é justamente aquele que pode se relacionar de forma verdadeira com os outros se explica com facilidade. Os que não se aceitam como indivíduos solitários vêem nos outros remédios para seu desamparo (pois o amor é sempre um remédio para o desamparo), ao passo que os que se aceitam sozinhos já sabem que os outros não podem servir para tal fim. Os que percebem os outros como remédio para seus males interagem com eles sempre levando em conta suas enormes necessidades pessoais.

Assim, só pode ver o outro como ele é – e não como gostaria que ele fosse para melhor servi-la – a pessoa que não precisa dele para sua sobrevivência física ou emocional. Às vezes, penso que o egoísta necessita dos outros para a sobrevivência física, ao passo que o generoso precisa dos outros para a sobrevivência emocional. Nesse tipo de raciocínio, a generosidade seria apenas a versão requintada e disfarçada de uma fraqueza parecida.

As pessoas que melhor vivem a relação amorosa – são as que vivem como unidades e não como frações de si mesmas. Já sabemos que viver como unidade não significa ausência da sensação de incompletude, e sim de ter a convicção de que os outros estão em condição de igual e que a fusão de duas criaturas assim constituídas poderá ter mais chances de vingar no amor.



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*Midraxe: midrash em hebraico significa interpretar e aprofundar. Midraxe-halacá, quando se trata de leis, e Midraxe-hagadá, quando de histórias.

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6 comentários:

  1. Boa noite Marcelo. Concordo quando diz que a melhor relação é aquela onde cada individuo se vê como unidade pois, sendo assim, todos somos livres e independentes; por muito tempo vivi em busca da "minha metade" até que um dia alguém me fez enxergar que sou inteira e não a metade de alguém e a patir dai tenho sido mais generosa e mais feliz em meus relacionamentos. Hoje vivo uma relação liberal sem algemas emocionais sem medo de perder a tal metade.Duas unidades são bem mais fortes que duas metades.
    PS. Adorei seu texto muito rico. Beijos Laura.

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    1. Olá Laura, boa dia! A priori: desculpas pela minha demora em lhe responder, e eu adorei vosso comentário, e feliz em ter escrito algo que vai de encontro com seu estilo e modo de ver a vida e relacionamentos amorosos. Ganhei meu dia! Bjs.

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  2. Maravilhoso! São os maiores líquidos de Baumann

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    1. Olá Gabriela Cardoso, obrigado pela leitura.

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