segunda-feira, 11 de março de 2013

CRÔNICAS AVULSAS: ELE NÃO É APENAS UMA ENTIDADE - É UMA LEGIÃO...


Foto gentilmente cedida por Alcântara Duran Capra*, tirada no SESC Osasco - São Paulo, show do Criolo em 09/03/2013 - via Windows Phone.


Falar sobre o artista Criolo é uma tarefa complicada. Aliás, escrever é complicado por si só, e quem dirá ainda escrever sobre um sujeito que transita em vários tipos musicais com uma versatilidade que eu nunca tinha visto antes em nossa cena musical brasileira (bastante empobrecida por sinal, pois, basta olhar os hits vigentes nas rádios).

“Nó na orelha” foi lançado em 2011, é o segundo disco do Criolo, que consagrou esse artista e o alçou para nossa nação e o mundo. Digo isso, pois, já o conhecia de longa data do famigerado Pagode da 27, que é um reduto do samba de São Paulo, localizado no bairro do Grajaú.  

Uma coisa que me chama muito atenção no Criolo e pude conferir isso ao vivo no seu show do dia 09/03/2013 no SESC Osasco é a sua capacidade artística que o faz transitar ora no hip hop, reggae, samba, soul, afrobeat, bolero... É uma mistura de ritmos envolventes que não nos deixa sair incólumes a sua arte. É um artista ímpar e faz um contraponto importante, já que no Brasil o que mais temos são: “artistas” que não fazem arte! Já o caso do Criolo que é um artista independente e está nessa caminhada há mais de 20 anos, vejo o oposto, ou seja, um artista de verdade que ama sua arte e faz com amor – o que ele de melhor sabe fazer: compor e cantar.

Numa época empobrecida e falida musicalmente, com letras de péssimo conteúdo, poder ouvir: “Não existe amor em SP”, “Samba sambei”, “Bogotá” e a que mais adoro: “Mariô” tem a mesma função do bálsamo para um enfermo.
As músicas do Criolo, para mim são um alívio para a alma, um convite a reflexão sobre o nosso cotidiano leve e pesado (ao mesmo tempo) e por que não? – um convite a mudança; pois como dizia Nietzsche:

“A cobra que não consegue livrar-se da sua casca morre.
O mesmo acontece com os espíritos que são impedidos
de mudar as suas opiniões; eles deixam de ser espírito”.

Uma pena que muitos julgam antes. Aliás, somos seres que adoramos julgar os outros. Tudo que foge aos nossos padrões (preestabelecidos a priori) tendemos a olhar feio, descartar ou excluir. O que é uma pena e um erro crasso; pois podemos com isso perder coisas lindas da vida. Como dizia o Livro dos Conselhos: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. A grande questão é saber reparar. Pois, olhar todos nós olhamos. Agora: reparar...

O olhar precisa ser educado para aprender a reparar. “Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios. Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma...”, disse Alberto Caeiro. Temos olhos e somos cegos. Somos castrados nos olhos. Nossos olhos não experimentam ereções. O visível não nos espanta. O trágico espetáculo das pessoas assentadas diante da televisão dá testemunho de que os objetos, cultura, natureza e a arte do mundo não nos excitam mais. Nietzsche via o “aprender a ver” como a primeira tarefa da educação.

Ney Matogrosso, disse que o Criolo no palco é uma entidade. Para mim é mais do que isso: é uma legião! Ney, Caetano Veloso, Chico Buarque reparam em Criolo e eu também (aliás, bem antes desses) e você – está esperando o quê?


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