quarta-feira, 14 de abril de 2010

EXCERTOS DA 7ª ARTE (PARTE VIII)



OS PÁSSAROS (1914), DE FRANZ MARC


Sempre fico me perguntando: “O que seria um filme para crianças?” e “Filmes de crianças são para adultos também?”. De fato andamos numa linha tênue quando questionamos isso e tentamos achar as respostas, pois onde acaba um e se inicia o outro? Sinceramente não sei.

Digo isso, pois minha filha também adora a 7ª arte, e temos freqüentado com constância as salas de cinema. Assistimos sempre os filmes intitulados “infantis” e recomendados para sua faixa etária – 8 anos.

O último que vimos, foi: “Como Treinar o Seu Dragão”. Uma das linhas que atravessa essa película é justamente a eterna questão do enfrentamento do filho, com os limites e regras dos pais. Mas ainda que trilhe esse caminho, ele consegue com maestria o reverso dessa condição.

O protagonista se chama Soluço, esquelético e inconstante, um verdadeiro fracasso como viking e por conseqüência uma verdadeira decepção para seu pai, o líder do clã. Nunca conseguirá se tornar um caçador eficiente de dragões, pois é sobremaneira desajeitado para isso.

Justamente a qualidade mais essencial e vital para os garotos e homens da ilha Berk, é que matem os dragões, que de tempos em tempos assolam seu território, arrasando tudo e pilhando seus animais.

Por um toque do destino. Coincidência. E um momento de compaixão e de curiosidade típica da sua idade o colocam num rumo diferente. Soluço vai aos poucos em segredo e depois publicamente, tornando-se num domador de dragões. E aqui reside o grande mote do filme, ou seja, o sentimento libertador, inebriante e vertiginoso que uma criança prova quando descobre que, às vezes, há uma alternativa a pôr-se sob as rédeas adultas: pode-se usar a imaginação para inventar regras melhores.

Os cenários do filme são excelentes, e são bem aproveitados na versão em 3D. O laço que se cria mutuamente entre Soluço e Banguela (dragão), que ele salva e “conserta” é repleta de humor e sentimento. No final é introduzido um dado real de sacrifício físico que é mais comumente visto nos desenhos japoneses, do que nos americanos. Pois Soluço perde algo precioso, ao se manter fiel aos seus valores e convicções.

Toda Berk ao final sai ganhando, por terem ouvido o menino magricelo que compensa o que lhe falta em respeito às regras impostas com o que lhe sobeja em imaginação e criatividade.

Minha filha, que chama Luana V. Caldas, chorou horrores vendo esse filme. E ao final, quando íamos embora, e ela já tinha recobrado seus sentimentos, lhe perguntei o que mais lhe chamou a atenção no filme. Ao que ela disse sem pestanejar:

“Pai, para mim a relação de amizade pura entre o Soluço e o Banguela, foi o melhor do filme, foi lindo.”

Disse para ela que amizade é um sentimento deveras – nobre e essencial para todos nós. E feliz aquele que tem amigos nessa vida, que são verdadeiros oásis para nossas almas.

Ao que ela respondeu:

“Pai, isso parece poesia.”
“Sim, Luana, me lembrei de um poema do Fernando Pessoa”.
“Diga ele Pai”.
“Claro”. Respondi.


Poema de amigo aprendiz

"Quero ser teu amigo, nem demais e nem de menos,
nem tão longe e nem tão perto,
na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for a hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Da-me tempo, de acertar nossas distâncias”.


Quando acabei de recitar esse poema, vi seus olhos cintilarem novamente, como na sala de cinema ainda há pouco. E de repente pensei, que talvez, não existam filmes para adultos e nem para crianças, mas para tocarem nossas almas profundamente e levemente como as poesias...


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