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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

ASSIM ENTENDO A PALAVRA: NÃO SE ESCONDA


A CRIAÇÃO, Afresco de Michelangelo no teto da Capela Sistina.


“E chamou o Senhor Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás? Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi.” 
Gênesis 3: 9-10

É totalmente contraproducente: Deus nos criar e não querer ter um relacionamento conosco. Não faz sentido algum Ele não querer se relacionar. Pois fomos feitos a sua imagem e semelhança, contudo, em muitos casos nós e que nos extraviamos, e como verdadeiras ovelhas – vagamos por campos e passamos a largo desse relacionamento com Deus.

O relato do Gênesis é ímpar, principalmente quando ele diz no versículo 8 do capítulo 3: “Quando ouviram a voz do Senhor Deus, que andava no jardim pela viração do dia [...]”. Ou seja, Deus estava com eles, se fez presente, andava com Adão e Eva. Porém, como somos carnais e pecadores optamos por andar em outro rumo, que não é o do relacionamento com Deus.

Nesse mesmo relato do Gênesis, a Serpente nos aplica um duro golpe, aliás, o maligno sabe muito bem onde nos atingir, ele é mestre em encher nos olhos com aquilo que não podemos ser – mas que lá no nosso íntimo desejamos. Astuto, sempre nos propõe algo que aparentemente parece simples e inocente, mas que por detrás – está carregado de dolo, pois nada vem de graça da Serpente e pagamos com isso um alto preço, que é o nosso pecado.

Notem que nesse relato, a Serpente não disse: “Ei, Adão e Eva, venham me seguir. Tornarei vocês verdadeiros Deuses!”. Pelo contrário, pois a Serpente sabia que entre ela e Deus, Adão e Eva e nós mesmos – sempre optaremos por Deus. Porém, entre Deus e o nosso ego inflamado, optaremos pelo nosso ego. E foi o que Adão e Eva fizeram, caíram nessa esparrela, e cá estamos nós vivendo as conseqüências. Ah, e não pense que se você ou eu estivéssemos lá, teríamos feito algo diferente do que fizeram Adão e Eva. Pois em 1 João capítulo 1:10 diz: “Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós”.

A boa nova é o que Deus diz no final da bíblia, no livro do Apocalipse capítulo 21 e versículo 3, que fala: “Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles.”

Sim – eu creio pela fé que essa relação será restaurada em definitivo e estaremos novamente ao lado de Deus e andaremos com ele, e nunca mais ninguém irá se esconder da sua face. Até que esse dia chegue, sigo ao lado de Jesus, pois ele mesmo disse: “E eis que estou convosco todos os dias até a consumação do século”. (Mateus 28:20).


Amém!

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segunda-feira, 21 de abril de 2014

ASSIM ENTENDO A PALAVRA: TODOS PODEM RECOMEÇAR



CAMINO, ITÁLIA, FOTOGRAFIA DE: STEVE McCURRY

“porque sete vezes cairá o justo e se levantará [...]”
Provérbios 24.16

Estive pensando no ambiente religioso dos nossos últimos tempos (os muitos lugares que freqüentei) e posso dizer que como testemunha ocular, que em muitas denominações o mais comum é apontar o dedo e dizer o pecado alheio do que proporcionar um ambiente acolhedor para as pessoas. Todos são ávidos e se apressam para mostrar o erro alheio, mas não tem coragem de olharem para os seus próprios. Sim, é bem mais fácil culpar e julgar do que ajudar e acolher. E isso não acontece só dentro dos muros religiosos, mas em todas as esferas sociais da nossa vida: trabalho, família, amigos...
Mas quando volto meus olhos pela Bíblia, vejo um Jesus, que age diametralmente oposto do que vejo. Aliás, Ele sim acolhe as pessoas e não fica pondo o dedo em riste na cara delas, acusando-as disso ou daquilo. Basta se lembrar da mulher pega em adultério, que após todos os judeus deixarem suas pedras no chão e irem embora, por terem sidos argüidos por Jesus para antes de atirarem qualquer pedra na mulher, a examinarem a si mesmos, Ele não aplicou nela um sermão, muito pelo contrário, disse para a mesma simplesmente:
“Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou? Respondeu ela: Ninguém, Senhor! Então, lhe disse Jesus: Nem eu tampouco te condeno; vai e não peques mais.” (João 8.10-11).
Naturalmente – todos nós somos pecadores, sem exceção. E hoje quando penso sobre santidade, chego à conclusão, de que santo mesmo é aquele, que se reconhece pecador, e por conseqüência comete pecados, mas que se arrepende, pede perdão e volta-se para o Senhor e não desiste de caminhar ao seu lado. Não cabe em minha mente discursos farisaicos daqueles que se julgam mais santos que os demais, que nunca erram, que nunca pecam – e alardeiam isso aos quatro ventos. Isso é tão desconexo da vida.

Essas pessoas me fazem lembrar do poema “Em Linha Reta” do Fernando Pessoa:
“Todos os meus conhecidos têm sido campões em tudo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipes – todos eles príncipes – na vida...
Arre, estou farto de simedeuses!
Onde é que há gente no mundo?”

Sim, sete vezes cairás o justo e se levantará de todas elas, pois o nosso Cristo nos ajudará nesse processo: ontem, hoje e sempre... 

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sábado, 27 de abril de 2013

CAFÉ LITERÁRIO EDITORA FILOCZAR: MACHADO DE ASSIS: ONTEM, HOJE E SEMPRE...



Meu coração está em festa! Esse é o nosso 2º encontro do Café Literário Editora Filoczar, e dessa vez terei a honrar de falar do querido Bruxo do Cosme Velho, segue todo o discurso de hoje.

O russo Vladimir Nabokov (autor do famoso livro: Lolita) certa feita num dia de sol escaldante, enquanto lecionava numa Universidade dos Estados Unidos, sobre literatura russa, disse para seus alunos, indo para frente da cortina da sala de aula:

“Isso é Anton Tchekhov – e abriu parcialmente a cortina. Abriu ela um pouco mais que a metade e disse: isso é Liev Tolstói. E por fim, escancarou a cortina de vez, deixando os raios solares irradiarem por toda a sala de aula e disse aos seus alunos: isso é Dostoiévski!”

Comparo Machado de Assis com esse último escritor russo que irradiou uma luz intensa na sala de aula, ou seja, Dostoiévski. Ambos são clássicos universais da literatura. Tanto isso é verdade que o famigerado crítico e ensaísta americano Harold Bloom, ao se referir sobre o nosso Machado de Assis disse isso:

“Machado de Assis é uma espécie de milagre, mais uma demonstração da autonomia do gênio literário quanto a fatores como tempo e lugar, política e religião.”

E o mesmo Bloom no livro “Gênio”, espécie de súmula comentada dos cem maiores escritores de todos os tempos – não deixou de fora o nosso Bruxo do Cosme Velho: Machado de Assis.

Em Machado de Assis temos um largo feixe de múltiplas interpretações possíveis sobre uma obra ainda hoje em aberto. Essa é uma característica dos clássicos, como se sabe. No caso de Machado, ele já se insinuava em sua época como gigante das letras e viveu essa glória de ser reconhecido em vida por seus pares e crítica.

I – ONTEM

No final de 1878, afastado do trabalho por causa de uma retinite no olho direito, com problemas de indigestão, insônia e ataques epiléticos, Machado de Assis foi cuidar da saúde em Nova Friburgo, a 140 km do Rio de Janeiro. 

Sua estadia na montanha traria efeitos que não eram só físicos: em três meses, ajudado pelo ar puro e por reflexões que vinha amadurecendo havia algum tempo, o “Bruxo do Cosme Velho” recuperou as forças e iniciou a segunda fase de sua carreira, que o transformaria no grande mestre de literatura brasileira em todos os tempos.

Até então, ele era autor dos romances: Ressurreição (1872), A mão e a luva (1874), Helena (1876), e Iaiá Garcia (1878), todos ainda tributários de uma estética romântica já decadente. Ao se instalar em um hotel, começa a ditar para sua mulher, Carolina, os capítulos que abrem Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), sua primeira obra-prima.

Creio que seja prudente falar um pouco sobre o tempo de Machado, pois ele viu desmoronar a Monarquia e surgir à República. Testemunhou a instalação do telefone e o aparecimento do bonde. Acompanhou a Guerra do Paraguai. E escreveu nesse hiato de tempo, várias obras-primas, que beberam dessa vasta fonte: sociedade - em que fazia parte. Os principais eventos de sua vida foram resumidamente:

  1. Nasce em 1839 Machado de Assis, filho de ex-escravos;
  2. Em 1840 ocorre a proclamação da maioridade de D. Pedro II, aos 15 anos;
  3. Em 1848 eclode na Europa uma série de revoluções;
  4. Em 1850 é proibido o tráfico negreiro;
  5. No ano de 1856 Machado entra para a Imprensa Nacional;
  6. Em 1864 Crisálidas, sua primeira obra, é lançada;
  7. No ano seguinte 1865 tem o início da Guerra do Paraguai;
  8. Em 1867 recebe a Ordem da Rosa (grau de cavaleiro);
  9. A ano de 1868 é lançado a primeira linha de bondes do Rio, de tração animal;
  10. Em 1869 Machado se casa com Carolina;
  11. 1870 ocorre o fim da Guerra do Paraguai;
  12. Em 1871 morre Castro Alves e ocorre a promulgação da Lei do Ventre Livre;
  13. O ano de 1872 é marcado pela publicação de Ressurreição primeiro romance de Machado;
  14. Em 1874 Machado de Assis toma posse no ministério da agricultura;
  15. Em 1877 morre José de Alencar;
  16. No ano seguinte 1878 sai Iaiá Garcia e começam a funcionar os telefones;
  17. Em 1879 Machado vai à Nova Friburgo, para cuidar da saúde;
  18. Em 1881 ocorre a publicação de Memórias póstumas de Brás Cubas;
  19. Em 1888 ocorre a abolição da escravatura;
  20. No ano seguinte 1889 vem a Proclamação da República;
  21. Em 1891 é publicado Quincas Borba e ocorre também a renúncia de marechal Deodoro;
  22. Em 1896 é fundado a ABL (ainda sem sede nem fardão);
  23. Em 1897 ocorre o fim da Guerra de Canudos, com a morte de Antônio Conselheiro;
  24. 1899 ocorre a publicação de Dom Casmurro;
  25. Em 1904 sai Esaú e Jacó e morre também Carolina (sua esposa) aos 70 anos, esse ano ainda é marcado pela reurbanização do Rio de Janeiro;
  26. 1906 Santos Dumont faz o vôo inaugural do 14-Bis;
  27. Em 1908 Memorial de aires é publicado e Machado de Assis, morre aos 69 anos.

Quando Machado de Assis morreu, o crítico literário de sua época José Verissimo disse: “Machado de Assis era a negação viva da falaz teoria da raça. Mulato, foi de fato grego da melhor época, pelo seu profundo senso de beleza, pela harmonia de sua vida, pela euritmia de sua obra.”

Seja numa perspectiva histórica, seja sob um ponto de vista psicologizante, dificilmente se dissociou o fenômeno machadiano do fato de ele ser neto de um ex-escravo. Seu pai era negro; sua mãe veio dos Açores ao Brasil num navio negreiro. Nascido numa “casa de agregados” de uma fazenda no Rio, em 1839, por toda a vida ele ficaria marcado por uma situação ambígua, a de ser aceito entre a elite de um país que só viu a Lei Áurea ser assinada em 1888 e o fato de ser mulato. Fundador da Academia Brasileira de Letras, funcionário público chegou a assessor de ministro, um dos cronistas mais importantes de seu período, considerado mestre no romance e no conto por duas gerações de contemporâneos, Machado foi o “estranho” que narrou as contradições dessa sociedade conhecendo-a por dentro, como um familiar.

A sutileza de sua obra, na qual nada é o que parece à primeira vista, também pode ser atribuída a essa posição transitória, que enfeixa uma série de paradoxos.

Daniel Piza no excelente livro: “Machado de Assis – um gênio brasileiro” sintetiza alguns desses paradoxos na apresentação do livro:

“Era monarquista, mas liberal e abolicionista (...). Era conservador, principalmente nos assuntos morais, como se viu em sua atuação como censor de peças teatrais; mas foi um escritor que enxergou sutilezas e satirizou fraquezas da natureza humana como poucos. Era francófilo, como toda aquela sociedade, mas foi um dos primeiros a se deixar influenciar pela literatura de língua inglesa, por seu humor irônico”.

Sua personalidade da mesma forma foi moldada num território “estrangeiro”, um ambiente hostil em que, além do obstáculo da cor da pele, ele enfrentou o preconceito social, como um epilético de origem muito pobre que tinha grandes ambições literárias, e o preconceito intelectual, pois como escritor adotou linguagem concisa e cristalina, rejeitou o otimismo e a religião e jamais aderiu a modas estéticas.

Foi um exímio lutador, pois sempre teve superações pessoais em sua vida, que incluem também uma gagueira de nascença e a morte da mãe e da irmã na infância.

As eventuais ilusões de seus personagens, que almejam ter tudo e acabam sem nada, podem ser uma forma discreta de auto-ironia: Machado não deixa de estar gozando a si mesmo por meio de Brás Cubas. Ele também se sentia dividido entre opostos e seduzido pela idéia de conciliá-los.

Ele ao aderir a esse status quo sempre maleável e cordial (ora monarquia, ora abolição) observando seus efeitos no comportamento próprio e alheio, Machado forja aos poucos uma abordagem única das paixões e mesquinharias humanas. A transição do Segundo Império para República era o universo por excelência das cartas de recomendação, das resenhas elogiosas para amigos, das mesuras e dos rapapés.

Como todo grande escritor, Machado é tudo o que dizem e mais um pouco. Investiga a natureza humana no contexto de sua época e, na mesma tacada, reinventa a ficção brasileira, e universal também, ao reciclar suas influências filosóficas e literárias.

Na linguagem, na temática urbana, na abordagem psicológica, na visão social, no humor e nas idéias, Machado de Assis mudou os patamares literários do país. Não há sinal de que deixará de ser essa referência quase totalizante, que transcende qualquer aspecto específico de estudo.


II – HOJE

Italo Calvino, num excelente ensaio intitulado de: “Por que ler os clássicos” me parece traduzir como ninguém a importância de Machado de Assis, para os dias hoje, eis o que ele nos ensina:

“7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).
Isso vale tanto para os clássicos antigos quanto para os modernos. Se leio a Odisséia, leio o texto de Homero, mas não posso esquecer tudo aquilo que as aventuras de Ulisses passaram a significar durante os séculos e não posso deixar de perguntar-me se tais significados estavam implícitos no texto ou se são incrustações, deformações ou dilatações. Lendo Kafka, não posso deixar de comprovar ou de rechaçar a legitimidade do adjetivo kafkiano, que costumamos ouvir a cada quinze minutos, aplicado dentro e fora de contexto. Se leio Pais e Filhos de Turgueniev ou Os Possuídos de Dostoiévski não posso deixar de pensar em como essas personagens continuaram a reencarnar-se até nossos dias.” 

Portanto, Machado de Assis é o nosso autor mais universal, pois compreendeu como poucos a triste comédia humana, em elaboradoras lições de lucidez crítica. Em sua obra, a literatura ganha, entre nós, uma dimensão filosófica ainda insuperável, ultrapassando definitivamente o domínio das futilidades românticas. A sua leitura continua sendo hoje garantia de prazer para quem quer algo mais do que brincar com as palavras.

Em sua obra se quisermos nos ater a conteúdos, encontraremos a melhor análise do ser brasileiro (lá está a política, a economia, o caráter) se quisermos nos ater a formas, verificaremos a sua modernidade, sua pós-modernidade e sua eternidade; pois sua obra nunca ficou confinada ao século XIX.

Gosto muito da frase que consta na estátua de Machado de Assis, em frente ao prédio da Academia Brasileira de Letras, no Rio de Janeiro, aonde podemos ler:

“Esta a glória que fica, eleva, honra e consola”.

Em minha modesta opinião ele quer nos ensinar com essa frase que o importante é a nossa memória a respeito de sua obra, essa sim é a verdadeira glória de um escritor. E Machado é um escritor que fica para a posteridade. Aliás, isso é outra característica dos clássicos, ou seja, quando muitas pessoas nunca leram uma só página do livro, mas sabem tudo sobre sua história. Assim é Machado, quem nunca ouviu falar dos olhos de Capitu: “olhos de cigana oblíqua e dissimulada” e de todo seu romance narrado em Dom Casmurro?

Quando medito no vasto oceano literário de Machado de Assis, constato esses pontos em sua prosa:

  • Uma literatura que não endossa o preconceito;
  • Que vai na contramão do cientificismo hegemônico na época;
  • Que se posiciona contra a desigualdade e a injustiça;
  • Que rebaixa os heróis e dá à mulher um papel substantivo;
  • Que faz a crítica da classe dominante de um olhar externo: de baixo para cima.
Vejamos esse exemplo que corrobora com essas idéias, ou seja, a visão de Machado não é o da “casa-grande”, e a morte do “senhor” se repete em alguns dos seus romances como metáfora da agonia do sistema: um mundo em que viúvas e de herdeiros não conseguem reproduzir o passado. Um bom exemplo é Brás Cubas, um “senhor defunto” que entra nas casas da elite escravista para encenar sua decadência, e isso em 1880, quase uma década antes da Abolição, ou seja, através desse personagem Machado vai contra o sistema e se posiciona. Egocêntrico, Brás é uma espécie de anti-Midas, não teve filhos e tudo o que toca se esvai.

Acredito e recomendo a todos que ler Machado é descobrir um mundo novo; pois quem estuda somente os homens, adquire o corpo do conhecimento sem a alma; e quem estuda somente os livros, a alma sem o corpo. Quem adiciona observação àquilo que vê, e reflexão àquilo que lê, está no caminho certo do conhecimento, contanto que ao sondar os corações dos outros, não negligencie o seu próprio. Ler Machado e termos esse convite de forma perene...

III – SEMPRE

O grande Cornelius Castoriadis disse: “Honrar um pensador não é elogiá-lo, nem mesmo interpretá-lo, mas discutir sua obra, mantendo-o, dessa forma, vivo, e demonstrando, em ato, que ele desafia o tempo e mantém sua relevância.” Procurei nesse discurso fazer isso, ou seja, honrar nosso Bruxo do Cosme Velho, que na linguagem, na temática urbana, na abordagem psicológica, na visão social, no humor e nas idéias, Machado de Assis mudou os patamares literários do nosso país.

Não há sinal de que deixará de ser essa referência quase totalizante, que transcende qualquer aspecto especifico de estudo. Com razão, Daniel Piza (que infelizmente não está mais entre nós) vê aí a marca do gênio. Aquela que, nas palavras do próprio escritor numa crônica de 1896, dá à arte o seu poder eternamente renovador:

“Um dia, quando já não houver império britânico nem república norte-americana, haverá Shakespeare; quando não se falar inglês, falar-se-á Shakespeare. Que valerão então todas as atuais discórdias? O mesmo que as dos gregos, que deixaram Homero e os trágicos”.

Machado de Assis: ontem, hoje e sempre – literalmente...

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terça-feira, 16 de abril de 2013

CAFÉ LITERÁRIO EDITORA FILOCZAR: AULA INAUGURAL



Leitores desse blog, no dia 17/03/2013 tive a honra de ministrar uma palestra na livraria e editora: Filoczar, do meu amigo César Mendes da Costa, me senti honrado com o convite e foi muito prazeroso partilhar desse pão sagrado: literatura. O projeto é termos uma palestra por mês, e já estou a todo vapor produzindo a 2º aula, que será ministrada agora em abril/2013.

Abaixo ipsis litteris segue toda a minha fala da palestra inaugural. Divirtam-se...


Saibam que todos são bem-vindos, para esse nosso encontro inicial do: CAFÉ LITERÁRIO EDITORA FILOCZAR: “Aos que desejam navegar pelos oceanos literários, um porto se oferta...”

Projeto esse que visa refletir sobre os grandes mestres da literatura universal e suas obras, proporcionando a todos um espaço democrático, para que todos opinem, dialoguem e questionem...
E como dizia Márcio Catunda: “Um gênio conversa com o espírito dos livros. E o acervo suscita viagens insólitas”. O meu desejo é um só: que aqui possamos conversar com os espíritos dos livros e que possamos ter muitas viagens inacreditáveis e extraordinárias, através das obras dos grandes mestres da literatura, sendo cada encontro, apenas uma breve estadia no porto, para que cada um ao sair daqui navegue pelos oceanos literários. Nesse sentido, a presença de todos vocês aqui é uma honra para mim e para a Editora Filoczar, e nesse primeiro encontro, o nosso tema é:

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ: VIDA, OBRA E TEMPO COM TINTAS DO REALISMO MÁGICO.

Na epígrafe do livro autobiográfico do Gabriel García Márquez, chamado: “Viver para Contar”, temos a seguinte frase: “A vida não é o que a gente viveu, e sim o que a gente recorda, e como recorda para contá-la.” E para nós entendermos um pouco sobre a obra do Gabriel, cujo apelido é Gabo, é necessário contar seu passado, que será parte fundamental para compreendermos toda sua obra; pois ela é uma extensão da sua própria vida.

I – ORIGENS

  • Nasce em 06 de março de 1928, em Aracataca (costa norte da Colômbia), portanto, hoje ele têm 82 anos;
  • Sua cidade viveu seu verdadeiro apogeu em 1910, com a febre da banana – quando a empresa americana UNITED FRUIT COMPANY, se estabelece nesse povoado que é revigorado com sua presença;
  • Afluição de pessoas de todas as raças e partes da Colômbia, para essa cidade, atraídas pelo progresso da banana; que constituíram-se mais tarde a base para alguns de seus personagens, como por exemplo: ciganos e circenses;
  •  Seu pai Gabriel Eligio García era telegrafista e Luisa Santiaga Márquez, como era costume da época não tinha nenhum ofício, mas distinguia-se das demais moças do povoado, por sua beleza. E além disso, era moça de família e filha do Coronel Nicolas Ricardo Márquez Mejía. Que desde do início foi contra a relação dos dois. Uma pela opção partidária do pretendente, que era Conservador, e o Coronel, tinha lutado inúmeras guerras pelo partido liberal. E além disso, o pretendente era telegrafista, um cargo que não era o sonhado pelo Coronel para sua filha;
  • Mesmo tendo afastado a filha para povoados distantes e remotos, e como o pretendente não desistiu, pois mantinha contato com a noiva, através da rede de telegrafistas espalhados por toda a Colômbia, que passavam seus recados de amor a ela; e devido a toda sua insistência e perseverança, os dois finalmente conseguiram se casar. E foram morar em Riohacha, uma velha cidade, às margens do Mar das Antilhas;
  • A pedido do Coronel, Luisa deu à luz ao seu primeiro filho em Aracataca. E talvez para apagar os últimos remorsos do ressentimento provocado pelo seu casamento com o telegrafista, deixou o recém-nascido aos cuidados dos avós;
  • Foi assim que Gabriel García Márquez cresceu naquela casa em Aracataca, com os cuidados dos avós paternos e sendo o único menino em meio a inúmeras mulheres;
  •  Seus avós foram os responsáveis pela sua criação. Sua avó: Dna. Tranquilina, transitava pela realidade e pelo irreal com muita naturalidade e tranqüilidade, e tudo isso terá um impacto enorme na obra de Gabriel; eis um breve relato disso, extraído do livro: “Cheiro de Goiaba – Conversas com Plínio Apuleyo Mendoza”, na pág. 8:
“A avó governava a casa, uma casa que depois ele recordaria como grande, antiga, com um pátio onde ardia as noites de muito calor, o aroma de um jasmineiro, e inúmeros quartos onde suspiravam às vezes os mortos. Para Dna. Tranquilina cuja família provinha de Gaajira, uma península de areais ardentes, de índios, contrabandistas e bruxos, não havia uma fronteira muito definida entre os mortos e os vivos. Referia-se a coisas fantásticas como ordinários acontecimentos e ficando cega, aquela fronteira entre os vivos e os mortos desaparecidos fez-se cada vez mais tênue, de modo que acabou falando com os mortos e escutando-lhes as queixas, os suspiros e os prantos.”

  • E usava desse tipo de argumentos para amedrontar o jovem Gabriel, ou seja, que as tias e tios mortos, iriam visitar ele caso fizesse alguma malcriação;
  • Além da avó, tinha as tias (Francisca, Petra e a Elvira), todas mulheres fantásticas e com enormes aptidões premonitórias. Cito o exemplo da sua tia Francisca, também relatada no livro citado, na pág.11: “A tia Francisca Simonosea por exemplo, era uma mulher forte e infatigável, sentou-se um dia para tecer a sua mortalha[1]. – Por que está fazendo uma mortalha? – perguntou-lhe o jovem Gabriel. – Porque vou morrer, menino – respondeu ela. E com efeito, quando terminou sua mortalha deitou-se na cama e morreu.”
  • Dessa forma e naturalmente, e por serem os únicos homens, o personagem mais importante da casa era o avô de Gabriel. Coronel Márquez, veterano de guerra e liberal de partido, e sua última guerra que participou foi em 1899 e terminou em 1901, deixou tombado nos campos de batalha 100 mil mortos, do partido liberal que era o seu, que lutou contra o partido conservador, que na época era situação;
  • Então entre o avó e o neto nasceu uma amizade singular. E seu avô fez saber tudo das guerras que participou ao jovem Gabriel, inclusive a mais sangrenta e trágica de toda a Colômbia, chamada Guerra dos Mil Dias;
  • O avô deu ao seu neto a maior importância. Sempre respondendo a tudo que lhe perguntava, mas num dia que o avô, chateado por não ter conseguido explicar uma palavra ao neto, lhe deu um dicionário de presente. E lhe disse: “Aqui estão todas as palavras do mundo”. A curiosidade foi tanta que ele folheou o dicionário como se fosse um romance, em ordem alfabética, sem entender nada. O tempo passou célere, e ele aprendeu a ler, e dedicou-se a outra empreitada, ou seja, consumir um livro que encontrou numa arca empoeirada. Um parente que o viu realizar a façanha com tanta perseverança concluiu: “Esse menino vai ser escritor.” O livro que ele encontrará na arca era: AS MIL E UMA NOITES. Já havia sido capturado pelo fascínio de contar;
  • A morte do âvo, quando Gabriel tinha apenas 8 anos de idade, foi o fim de sua primeira infância; o fim de Aracataca também. Foi enviado a capital do país, para viver com seus pais. E só retornaria para Aracataca já adulto; com sua mãe quando ela estava em verdadeiras ruínas, pois a próspera United Fruit Company tinha ido embora. Veio com sua mãe para vender a casa, e quando chegou a cidade um diálogo em especial lhe marcou, entre sua mãe e uma velha conhecida, que não lhe saiu da mente: - Comadre! Exclamou, levantando-se. As duas se abraçaram e começaram a chorar ao mesmo tempo. “Ali, daquele reencontro, saiu o meu primeiro romance.” disse Gabriel García Márquez.

II – OS SEUS

Tem um poema muito interessante de Lya Luft, que consta no livro: “Perdas & Ganhos”, na página 20, que diz assim:

“Frutos de enganos ou de amor,
nasço de minha própria contradição.
O contorno da boca,
a forma da mão, o jeito de andar
(sonhos e temores incluídos)
virão desses que me formaram.
Mas o que eu traçar no espelho
há de se armar também
segundo o meu desejo.
Terei meu par de asas
cujo vôo se levanta desses
que me dão a sombra onde eu cresço
- como, debaixo da árvore,
um caule
e sua flor


O que quero aplicar aqui ao citar para vocês esse poema da Lya Luft, é que toda obra de Gabriel, se assenta sob um tripé, a saber: a casa de seus avós em Aracataca, sua avó (mundo fantástico) e avô (mundo real); ou seja, os que lhe criaram e seu contexto de mundo,  vejamos o que ele mesmo diz sobre esses pontos:


Casa:
1 – “Minha lembrança mais viva e constante não é das pessoas e sim a própria casa de Aracataca onde morava com meus avós. É um sonho repetitivo que ainda persiste. Mais ainda: todo dia da minha vida acordo com a impressão, falsa ou real, de que sonhei que estou nessa casa. Não que voltei a ela, mas sim que estou lá, sem idade e sem nenhum motivo especial, como se nunca tivesse saído dessa casa velha e enorme.”

Avó – Dna. Tranquilina:
2 – “Não consigo definir muito bem, mas me parece que aquela angústia tinha uma origem concreta e que à noite se materializam todas as fantasias, os presságios e as evocações de minha avó. Essa era a minha relação com ela: uma espécie de cordão invisível mediante o qual nos comunicávamos ambos com um universo sobrenatural. De dia, o mundo mágico da minha avó me era fascinante, eu vivia dentro dele, era o meu mundo próprio. Mas à noite me causava terror.”

Avô – Coronel Nicolas
3 – “Meu avô, em compensação, era para mim a segurança absoluta dentro do mundo incerto da minha avó. Só com ele desaparecia a angústia e me sentia com os pés na terra e bem estabelecido na vida real”.

  • De uma maneira ou de outra, boa parte de toda sua obra se debruça e bebe dessa fonte, estabelecida sobre esse tripé: casarão de Aracataca, avó e avô. E sua obra se expande a partir desse universo. Vemos um pouco disso, aqui no Brasil no mestre Graça, como era chamado Graciliano Ramos, em: “Vidas Secas”. Sua obra mais conhecida e aclamada. Os personagens que compõem a obra, são feitos a partir da sua própria família e parentes;
  • Da sua relação com seus pais, pouca coisa ficou nele. Devido ao distanciamento dos estudos, pois com 12 anos, foi para um colégio com regime de internato. E só os via nas férias, que não duravam mais do que 15 dias, e nunca eram mais do que uma vez por ano.

III – O OFÍCIO

Eu gosto muito da frase de Sir. Winston Churchill, quando ele se refere ao ofício de escritor:
“Escrever um livro é uma aventura. Principia um brinquedo e um gosto. Vira um amante, depois um tutor, depois um tirano. Na fase final, já conformado em ser escravo você o mata e arremessa o corpo ao público.” E não foi diferente com Gabriel, que disse que começou a escrever por um acaso, e: “Depois caí na armadilha de continuar escrevendo por prazer e depois na outra armadilha de que nada mais me agradava mais no mundo do que escrever.”

O ponto de partida de um livro para que Gabriel o construa é uma imagem visual, exemplos:
1 – “A sesta da terça-feira”, que ele considera seu melhor conto, nasceu da visão de uma mulher e de uma menina vestidas de preto e com um guarda-chuva preto, andando sob um sol ardente num povoado deserto;
2 – “Ninguém escreve ao coronel”, livro, que nasceu da imagem de um homem esperando uma lancha no mercado de Barranquilla. Esperava-a com uma espécie de aflição silenciosa. Anos depois, o próprio Gabriel se encontrava em Paris esperando uma carta, talvez um cheque, com a mesma angústia e se identificou com a lembrança daquele homem;
3 – “O enterro do diabo”, é um livro, que nasceu da imagem de um velho que leva o neto a um enterro;
4 – A imagem visual do seu livro mais aclamado: “Cem anos de solidão”, é um velho que leva um menino para conhecer o gelo, exibido como curiosidade de circo. Que no seu caso, aqui foi seu próprio avô que fez isso com ele, quando o mesmo era criança.

Nota-se também que essa imagem visual, sempre parte de uma realidade concreta. E ele mesmo diz que a melhor fórmula literária pé sempre a verdade. Aprendeu isso de Ernest Hemingway, que é uma de suas influências, ele disse o seguinte: “A verdadeira ficção deve provir de tudo o que a gente já conheceu, viu e sentiu ou aprendeu.” Portanto, ele sempre parte desse pressuposto, e a partir desse alicerce de verdade, ao desenvolver suas obras ele acrescenta ficção, que atinge seu mais alto nível, quando confunde o leitor, que não consegue saber onde acaba e onde começa a ficção e a realidade/verdade, pois ambas estão intrinsecamente ligadas, e andam sob uma linha muito tênue. Eis o grande ponto sublime que todo escritor busca. E isso Gabo é notável e grande mestre.

Mario Vargas Llosa, tem uma frase que representa bem o universo ficcional de García Márquez, ele disse assim: “Os temas é que escolhem o escritor. Tenho sempre a sensação de que havia certas histórias que eu tinha de escrever, que não havia jeito de evitá-las.”
Por exemplo, Gabriel passou 15 anos pensando e estudando para escrever: Cem anos de solidão. E 17 anos para escrever o Outono do Patriarca e notáveis 30 anos para escrever: Crônica de uma morte anunciada. Que foram temas distintos que lhe aconteceram ou que tomou conhecimento ao longo de sua vida, e dos quais mais tarde ganharam corpo nesses romances. Ou seja, histórias inevitáveis que resistiram ao tempo, sem sombra de dúvida. E ele mesmo diz que não se interessa por uma idéia que não resista a muitos anos de abandono. E sua obra suspira isso por si só.

IV – FORMAÇÃO

Gabriel foi para uma escola em regime de internato, como bolsista, desde muito cedo. E como pouco via seus pais, seus único consolo foi à leitura, ao que ele mesmo se refere a esse época: “Encontrei nos livros a única maneira de fugir de uma realidade tão sombria. No vasto dormitório do colégio, liam-se livros em voz alta. A Montanha Mágica, O Corcunda de Notre Dame, O Conde de Monte Cristo. Aos domingos, sem ânimo de enfrentar o frio e a tristeza daquele povoado andino, ficava na biblioteca do colégio lendo romances de Júlio Verne e de Salgari e os poetas espanhóis ou colombianos cujos versos apareciam nos textos escolares.”

Tudo mudou numa noite em que leu A Metamorfose, de Kafka. Chegou à pobre pensão de estudantes onde morava, no centro da cidade com aquele livro que um colega acabava de lhe emprestar. Tirou o paletó e os sapatos, deitou-se na cama, abriu o livro e leu: “Quando Gregor Samsa acordou certa manhã, após um sono tranqüilo, viu-se em sua cama transformado num monstruoso inseto.” Gabriel fechou o livro, tremendo: “Merda!” pensou, “então se pode fazer isso”. No dia seguinte escreveu o seu primeiro conto. E se esqueceu dos estudos. E seu deu conta que Kafka, em alemão, contava as mesmas coisas da mesma maneira que sua avó. Daí teve o insight de trazer a tona tudo o que ouvira de suas tias, avó e avô; e deu vida ao casarão e a cidade de Aracataca do seu tempo de infância.

Naturalmente, seu pai não entenderia uma decisão tão heróica. O antigo telegrafista esperava que o filho conseguisse o que ele não pode: obter um título universitário. Assim, ao saber que Gabriel descuidava dos estudos, começou a considerá-lo sombriamente como um caso perdido.

Regressou à costa da Colômbia aos 20 anos de idade. Tendo deixado o curso de direito inacabado. Em Cartagena, conseguiu emprego na redação de um jornal, El Universal, como redator de notas. E pode se dedicar ao que mais gostava – escrever.

Viveu nessa época rodeado de amigos, que como ele eram apreciadores de literatura e leitores inveterados. Esse grupo, foi chamado de “o grupo de Barranquilla”, que eram farristas desmedidos, picados pela literatura, que Gabriel encontrou em Barranquilla, por volta dos anos 50. Atualmente esse grupo é estudado nas universidades da Europa e EUA, por especialistas da literatura latino-americana. E seus autores prediletos eram: James Joyce, William Faulkner, Ernest Hemingway e Virginia Woolf, essa última aliás, ele disse mais tarde que um conto seu Mrs. Dalloway, lhe trouxe as pistas para escrever seu primeiro livro: “O enterro do diabo”.

Resumindo: (1) Salgari e Júlio Verne e os poetas lidos no internato; (2) Kafka e os romancistas russos e franceses descobertos na sua pensão de estudante; (3) os gregos que estudou em Cartagena, quando chegou lá; e por fim (4) os norte americanos e ingleses que seus amigos de Barranquilla lhe revelaram.
Assim, quando regressou daquela viagem realizada com sua mãe a Aracataca, não só tinha alguma coisa para dizer; mas, à força de conviver com tantos autores, ao longo de uma adolescência e de uma primeira juventude de solidão e busca, sabia também como dizer.

V – REALISMO MÁGICO

Para o próprio Gabriel, é fato que o mesmo encara um bom romance, como uma transposição poética da realidade. Destarte, ele afirma que um romance é uma representação cifrada da realidade, uma espécie de adivinhação do mundo. Contudo, a realidade que se maneja num romance é diferente da realidade da vida, embora se apóie nela. Como acontece com os sonhos. E nos seus romances não há uma linha que não esteja apoiada e baseada na realidade.

E o Gabriel, faz parte de uma escola, que chamamos de: “REALISMO MÁGICO” que se desenvolveu fortemente nas décadas de 60 e 70, como produto de duas visões que conviviam na América Hispânica e também no Brasil: a cultura da tecnologia e a cultura da superstição. Surgiu também como forma de reagir, através das palavras, contra as ditaduras da região. Ele pode ser definido como a preocupação estilística e o interesse de mostrar o irreal ou estranho como algo cotidiano e comum. Sua finalidade não é a de suscitar emoções, mas sim de melhor expressá-las e é, sobretudo, uma atitude frente à realidade. Uma das obras mais representativas deste estilo é “Cem anos de solidão”, de Gabriel García Márquez.
      
Os seguintes aspectos estão presentes em muitos romances e contos do realismo mágico, mas não necessariamente estão todos presentes em todas as obras desta escola. Do mesmo modo, obras pertencentes a outras escolas podem apresentar algumas características dentre aquelas aqui listadas:

·   Conteúdo de elementos mágicos ou fantásticos percebidos como parte da “normalidade” pelos personagens;
·        Elementos mágicos algumas vezes intuitivos, mas nunca explicados;
·        Presença sensorial como parte da percepção da realidade;
·     O tempo é percebido como cíclico, como não linear, seguindo tradições dissociadas da racionalidade moderna;
·        O tempo é distorcido, para que o presente se repita ou se pareça com o passado;
·        Transformação do comum e do cotidiano em uma vivência que inclui experiências sobrenaturais ou fantásticas.

VI – OBRAS

Antes de falar sobre algumas das principais obras do Gabriel García Márquez, e finalizar a apresentação, creio que a frase do Erico Verissimo, que tem uma obra que se enquadra dentro do realismo mágico, a saber: “Incidente em Antares” vem bem a calhar, dentro do universo ficcional do Gabo, ela diz assim: “A verdade, porém, é que ninguém se livra de suas lembranças, nem das velhas idiossincrasias, malquerenças e desejos recalcados. E, quando se trata dum romancista, essas impurezas mais tarde ou mais cedo acabam aparecendo na face ou na alma de seus personagens.” E justamente isso que vemos correntemente em toda a obra do Gabriel.

Outras das crenças do Gabriel, é que ele afirma que em geral, um escritor só escreve um único livro, embora esse livro apareça em muitos tomos, com títulos diversos. E no seu caso, poderíamos dizer que o seu livro é sobre a SOLIDÃO. O personagem central de “O enterro do diabo” é um homem que vive e morre na mais absoluta solidão. A solidão está também no personagem de “Ninguém escreve ao coronel” onde temos o coronel, com sua mulher e seu galo, esperando toda sexta-feira uma pensão que nunca chega. E está no prefeito do conto “O veneno da madrugada”, que não consegue ganhar a confiança do povo e experimenta, à sua maneira, a solidão do poder. Solidão no patriarca, em o “Outono do patriarca” e obviamente em “Cem anos de solidão”. 

Sendo assim, irei falar sobre suas obras, começando por: CEM ANOS DE SOLIDÃO – um comboio carregado de cadáveres. Uma população inteira que perde a memória. Mulheres que se trancam por décadas numa casa escura. Um homem que arrasta atrás de si um cortejo de borboletas amarelas. São esses alguns dos elementos que compõem o exuberante universo deste romance, no qual se narra a história da cidade de Macondo e de seus inesquecíveis habitantes. E como o próprio Gabriel, descreve o protagonista de Cem anos de Solidão, inspirado em seu avô: “O coronel Aureliano Buendía promoveu 32 revoluções armadas e perdeu todas.” Estão aqui ao mesmo tempo o humor funesto com que trata da impotência do homem e o tom de extrema naturalidade que usa para narrar fatos inverossímeis. Publicado em 1967, o romance conta a história dos Buendía, família condenada por uma força inexplicável a viver um século de solidão. Sucessivas gerações de homens e mulheres marcados por sinais trágicos fazem mover uma engrenagem de repetições de comportamentos obsessivos e desilusões. O pano de fundo é o dos sangrentos enfrentamentos entre os conservadores e liberais, que cindiram a Colômbia a partir do século 19.

Trecho de Cem Anos do Solidão: “Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. (...) O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava apontar o dedo. (...) “As coisas tem nomes próprios”, apregoava o cigano com áspero sotaque, “tudo é questão de despertar a alma”.

O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA – de 1985, Fermina Daza e Florentino Ariza se apaixonam ainda adolescentes e protagonizam um amor que se constrói, inicialmente, por uma febril correspondência. Ambos são impedidos de viver esse amor juvenil, pois o pai de Fermina Daza exige que ela faça uma longa viagem. Os telégrafos servirão de auxílio para que o diálogo entre os apaixonados não se interrompa.  Amor, então constituído apenas por palavras, irá sucumbir ao regresso de Fermina Daza. No momento em que a jovem retorna e vislumbra a realidade sobreposta à imagem idealizada de Florentino Ariza acontece o desencanto e a ruptura. Ela, então, se casará com o médico Juvenal Urbino, com quem viverá durante cinqüenta anos. Naturalizando o sobrenatural ou sobrenaturalizando as leis naturais, o autor fará Florentino Ariza esperar por Fermina Daza por 50 anos para que os dois possam, enfim, subir e descer o rio Magdalena, aprisionados pelo amor e por um barco condenado ao isolamento dos tempos do cólera.

Trecho do Amor nos Tempos do Cólera: “O drama de Florentino Ariza enquanto foi calígrafo da Companhia Fluvial do Caribe era que não podia afastar seu lirismo porque não deixava de pensar em Fermina Daza, e nunca aprendeu a escrever sem pensar nela. Depois, quando o passaram a outros cargos, sobrava-lhe tanto amor por dentro que não sabia que fazer com ele, e dava-o de presente aos enamorados implumes escrevendo para eles cartas de amor no Portal dos Escrivões”.

CRÔNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA – De 1981, depois de seis anos de jejum literário, Gabo publicou esse livro, uma novela que ocupa um lugar central na trajetória literária sua. Trata-se de um relato conciso e envolvente que surpreende o leitor pelo modo como é narrado: um crime tantas vezes anunciado, até ser cometido com crueza e crueldade à vista de todos. A trama da Crônica explora um dos motivos mais recorrentes da prosa de ficção, que vem destes romances de cavalaria: uma história de amor em que a honra perdida só pode ser reparada por meio da vingança. É a história de uma noiva que na primeira noite de casada, é devolvida a casa de seus pais. E seus irmãos, querem saber quem foi que fez isso, para se vingarem da honra perdida. Desde as primeiras páginas sabemos quem é a vitima e quem são os assassinos. Ou seja, o leitor se depara com uma revelação que contrária a uma das convenções da novela enquanto gênero, pois não há uma reviravolta na trama. A revelação, de chofre, da identidade do assassino desvia o interesse e a curiosidade do leitor para outras indagações: como tudo isso pode ter acontecido? Por que esse crime bárbaro que todos sabem (ou pensam) que vai acontecer não é evitado? Ou melhor, não pode ser evitado? Paro por aqui e espero que vocês fiquem curiosos em ler a obra, atrás dessas questões...

Trecho do livro: “A versão corrente, talvez por ser a mais perversa, era que Ângela Vicário estava protegendo alguém a quem, de verdade amava e tinha escolhido o nome de Santiago Nasar porque nunca pensou que os irmãos se atreveriam a enfrentá-lo. Eu mesmo tentei arrancar-lhe esta verdade de, quando a visitei pela segunda vez, com todos os meus argumentos em ordem, mas ela só levantou os olhos do bordado para contestá-los. – Não mexa mais nisso primo – disse-me. – Foi ele.
Todo o resto ela contou sem reticências, até a desgraça da noite de bodas.”

O OUTONO DO PATRIARCA – é um livro sobre o enigma humano do poder, sobre a sua solidão e sua miséria. E Gabriel, diz que é uma das suas obras mais ousadas, pois se torna um poema em prosa. E essa é a sensação que temos, quando lemos esse livro. Ele usou de pano de fundo, para a construção dessa obra, as biografias de todos os ditadores da América Latina, seus feitos, megalomanias e delírios. E teve essa idéia de construir esse livro, quando esteve na Venezuela, como repórter, e presenciou a queda do poder do ditador Pérez Jiménez, que fugiu num avião, dando fim a ditadura no país naquele momento.

Trecho: “Assim o encontraram nas vésperas do seu outono, quando o cadáver era na realidade o de Patrício Aragonês, e assim voltamos a encontrá-lo muitos anos mais tarde em uma época de tantas incertezas que ninguém podia submeter-se à evidência de que fosse seu aquele corpo senil carcomido de urubus e danificado de parasitas do fundo do mar”.  

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[1] MORTALHA – VESTIDURA EM QUE SE ENVOLVE O CADÁVER QUE VAI SER SEPULTADO.

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domingo, 9 de dezembro de 2012

HOMENAGEM: A HORA DE CLARICE LISPECTOR


Amanhã (10/12/2012) se estivesse viva, a monumental Clarice Lispector (1920-1977) desfaria 92 anos. E quero prestar aqui minha singela homenagem, para essa gigante das letras - que admiro muito! Então peço lincença ao Carlos Heitor Cony, que fez uma dedicatória do seu livro: "Eu, aos pedaços" para mim e transcrevo sua excelente crônica sobre Lispector.

CLARICE LISPECTOR - LEMBRANÇAS DO GRANDE PEIXE FOSFORESCENTE

Mulher bonita, mais que bonita: impressionante. Talvez nem fosse bonita, mas bastava olhá-la para nunca esquecê-la. O rosto projetado para a frente, um tipo eslavo, silencioso, pupilas claras que olhavam o mundo sem nunca deixar de ver dentro – sua pátria era ela mesma, aquilo que hoje poderemos chamar de “praia”.

Foram muitos os que se apaixonaram por ela – pela mulher, não ainda pela escritora. Durante anos, seus livros ficaram amontoados nos sebos da cidade. Nos jornais e revistas, volta e meia aparecia uma resenha amável feita de estima ou de homenagem à colega – Clarice era também jornalista, creio que trabalhou em A Noite, jornal antigo que pertencia ao governo e que teve a sua fase de grande vespertino.

Até ser publicada pela turma da Editora do Autor, ela foi uma curiosa espécie de inédita. Todos sabiam que Clarice escrevia e escrevia bem, mas poucos a liam. Durante anos fez entrevistas, perfis, reportagens para a revista Manchete, em que colaboravam Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Vinicius de Moraes e outros que também integravam o elenco daquela editora que mais tarde se chamaria Sabiá.

Não foi a crítica que descobriu Clarice Lispector. Foram os leitores, principalmente leitoras, ao atingirem o nível universitário. O grande público custou a chegar, preferia então um tipo de ficção mais colorido e movimentado. O mergulho introspectivo em nossa literatura era seara de iniciados que apreciam Cornélio Pena e tinham acesso a Katherine Mansfield.

De repente, sua obra começou a ser lida e discutida, era a preferida para teses de mestrado. Vieram em cascata as traduções e os estudos críticos, publicaram-se, no Brasil e no exterior, os primeiros ensaios acadêmicos sobre sua ficção. Nascia um fenômeno que vinha de baixo para cima, que subia do leitor para a crítica, do limbo para o Olimpo editorial.

Mais ou menos pela mesma época, quando seus livros saíram do pó para o destaque das livrarias e da mídia, um acidente quase a matou. Clarice gostava de escrever em uma pequena máquina portátil, que colocava no colo. Fumava muito, muitas de suas fotos, hoje tornada clássicas, a mostram de cigarro na boca. Uns dizem que ela já estava deitada quando cochilou com o cigarro aceso. Saiu do incêndio com queimaduras que cirurgias reparadoras disfarçaram. O belo, o enigmático rosto de Clarice Lispector nunca mais foi o mesmo.

Morava no Leme, num apartamento recuado da rua General Ribeiro da Costa, pouco depois da ladeira onde morava Ary Barroso. Eram os dois moradores mais famosos do pedaço e talvez nunca se tenham conhecido. Clarice não era dada à badalação, nem costumava freqüentar lugares obviamente corretos.

Desquitada de um diplomata, com filhos já crescidos, ela podia ter entrado em circulação no complicado universo dos “casos”. Não faltavam pretendentes. É possível que ela tenha se ligado a um ou a outro, mas sempre discretamente. Paixão para ela não era segundo a carne – não foi à toa que escreveu A Paixão segundo G.H.

Por sinal, esse título nasceu depois de o livro estar quase pronto. No início dos anos 60, ela me telefonou, tinha uma amiga, a embaixatriz Maria Martins, que deseja me conhecer. Pediu que Clarice me levasse a seu apartamento, no Flamengo. Apanhei-a em casa, eu tinha um Gordini cinza, era novidade na época, Clarice elogiou o carro. Apresentou-me a Maria Martins, conversamos sobre arte, literatura e um pouco sobre política, que estava fervendo naquela ocasião. Depois fui levá-la de volta ao Leme, e ela me perguntou o que eu estava escrevendo.

Não estava escrevendo nada, naquele momento. A editora Civilização Brasileira anunciava um novo livro meu, Paixão segundo Mateus, título chupado de J. S. Bach, aliás, chupado dos evangelhos. Como sempre acontece comigo, tinha o título, mas não tinha a história. Clarice tinha a história, mas não tinha o título. Na crônica que escrevia no Correio da Manhã, sob a rubrica “Da arte de falar mal”, não a acusei de ter roubado o título, que afinal não era meu, era de Bach e do Novo Testamento.

Clarice já se instalara na prateleira mais nobre de nossa literatura, A maça no escuro estourara. Ela chegou a pensar em só se dedicar às letras, mas o mercado era pequeno, teve de voltar ao jornalismo, a fazer entrevistas estranhas. Lembro-me de duas: com o ex-presidente Jânio Quadros e com a primeira-dama de então, dona Iolanda Costa e Silva. Impressionante a sua capacidade de dar conta do recado profissional, traçar o perfil de personalidades que nada tinha a ver com Clarice Lispector, com seu mundo, sua alma.

A diferença é que ela vestia um escafandro para viajar em universo alheio. Sua arte, sua beleza só vinham quando mergulhava nua em si mesma. Branca, enorme peixe fosforescente, iluminava com surpreendentes centelhas o mundo submerso no qual vivia e do qual nos trazia notícia.

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sábado, 8 de dezembro de 2012

QUAL A SUA GRANDEZA?



A minha grandeza reside nessa máxima de Aristóteles, nela me movo, existo, penso e realizo:

"Somos o que fazemos repetidamente, repetidas vezes. Portanto, a excelência não é um feito, mas um hábito."

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quarta-feira, 21 de novembro de 2012

SIMPLES ASSIM: LINDO!


"A quem sabe mergulhar numa página o trampolim se oferta."

_Carlos Drummond de Andrade.

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domingo, 18 de novembro de 2012

ASSIM ENTENDO A PALAVRA: A NOSSA VIDA NÃO SECA POR MALDIÇÃO, MAS POR INANINAÇÃO


FLORES DE AMÊNDOA – VAN GOGH (1890)

“Cedo de manhã, ao voltar para a cidade, teve fome; e, vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-se dela; e, não tendo achado senão folhas, disse-lhe: Nunca mais nasça fruto de ti! E a figueira secou imediatamente.” (Mateus 21:18-19)

Não acredito em maldições; embora bem saiba que no meio religioso elas grassam por todos os lados. E quando me debruço sobre essa passagem, creio que Jesus não amaldiçoa a figueira, que segundo o Talmude, costumava produzir figos duas vezes ao ano, sendo a primeira colheita feita em abril. Pelo contrário, creio que Cristo apenas confirma uma condição que já é própria de sua natureza estéril; pois, obviamente ela não tem fruto, então Ele somente fortalece este fato.

Minha cosmovisão parte de um Deus que nos dá o livre arbítrio (minha fé é calcada sobre esse pilar) Deus não cria ninguém para ser um pecador nato, não transforma um homem justo em um pecador e nem faz um pecador ser justo sem que este o queira. Em miúdos: Deus não obriga ninguém a ser o que não quer. Pelo contrário, Ele tão somente confirma as nossas decisões. Então se escolhemos ser justos na vida, Ele a cada dia nos ajudará nesse sentido; agora se quisermos viver a vida, sem lhe reconhecer como nosso Deus e confirmarmos isso com nossas atitudes, chegará um momento em que Deus permitirá que a nossa decisão se concretize.

O maior exemplo disso é o duelo entre Faraó e Moisés, quando se enfrentaram para decidir se o povo de Israel sairia ou não para a terra prometida. Faraó se recusava a deixar o povo ir, endurecia-se cada vez mais, e num estágio da peleja quando quis desistir, não conseguiu mais, pois a Bíblia diz que o Senhor endureceu (o original hebraico diz “fortaleceu”) o coração do Faraó, confirmando a sua obstinação em não deixar o povo ir.

Deus não fez ninguém para ser infrutífero. Ninguém vai dormir santo e acorda um salafrário. Desenvolve-se um longo processo em que a pessoa vai se tornando infrutífera, estéril, voltando constantemente as costas para os princípios espirituais que guiaram a sua vida. Nãos secamos por causa de maldição, e sim em função de más decisões, que vão asfixiando nosso coração na forma de um lento suicídio espiritual, até que um dia nos deparamos com o Senhor da nossa vida que confirma o caminho da esterilidade pelo qual optamos.

O grande mestre Guimarães Rosa disse em Grande Sertão: Veredas “...pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando”.

Que cada um pense sobre suas mudanças, pois pode ser que algumas escolhas não tenham mais o caminho de volta.

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segunda-feira, 9 de julho de 2012

ASSIM ENTENDO A PALAVRA: MUITO OBRIGADO!


“De caminho para Jerusalém, passava Jesus pelo meio de Samaria e da Galiléia. Ao entrar numa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez leprosos, que ficaram de longe e lhe gritaram, dizendo: Jesus, Mestre, compadece-te de nós! Ao vê-los, disse-lhes Jesus: Ide e mostrai-vos aos sacerdotes. Aconteceu que, indo eles, foram purificados. Um dos dez, vendo que fora curado, voltou, dando glória a Deus em alta voz, e prostrou-se com o rosto em terra aos pés de Jesus, agradecendo-lhe; e este era samaritano. Então, Jesus lhe perguntou: Não eram dez os que foram curados? Onde estão os nove? Não houve; porventura, quem voltasse para dar glória a Deus, senão este estrangeiro? E disse-lhe: Levanta-te e vai; a tua fé te salvou.” (Lucas 17: 11-19)

Algumas situações de nossas vidas ficam gravadas em nossa memória para sempre; não sei bem ao certo por que isso acontece, mas lá ficam para a vida toda. Um dia desses estava relendo essa passagem dos dez leprosos em Lucas e me lembrei de quando era novo cristão e de uma determinada reunião que participei, onde todos os presentes apresentavam seus pedidos de oração (que sempre eram petições das mais diversas possíveis) ao final do culto. Assim um a um, todos iam fazendo seus pedidos. Calhou nesse dia que eu seria o último a falar, pois estava no final de onde os pedidos se iniciaram. Vendo tudo aquilo, senti pela primeira vez um nervosismo exacerbado ao ter que falar (embora nunca tenha sido tímido) nesse dia fiquei tenso.

Quando finalmente chegou minha vez, disse que não queria pedir nada a Deus, mas simplesmente externar a Ele o quanto estava grato por tudo que Ele tinha feito por mim na Cruz do Calvário, e que isso era por demais maravilhoso e suficiente para mim. Como num passe de mágica, todos voltaram seus olhares para mim, o responsável pela reunião, tratou rapidamente de retomar as rédeas da situação e mudou de assunto.

O tempo se passou e hoje relendo essa passagem, acredito que a gratidão é algo tão fundamental na fé cristã, como ler a Palavra. Aliás, quando somos gratos por tudo em nossas vidas, ela adquire outra cor. Do cinzento opaco passa a ser multicolorida. Quando somos gratos, tudo muda; nossas relações principalmente: com nossos irmãos, pais, vizinhos, meio ambiente, com as pessoas que nos servem, com nossos animais de estimação...

Outro elemento significativo que aparece no texto é a lepra, que é uma doença terrível e excludente. Ela começa pelas extremidades do nosso corpo, ou seja, pelos dedos dos pés e das mãos. Rapidamente tira toda a sensibilidade do corpo. Assim não se sente dor, pode-se colocar o dedo no fogo e nada sentirá. Ao ler a passagem de Lucas, vemos que só um voltou e lhe agradeceu, os outros nove foram embora, pois já tinham recebido o que pediram e estavam curados. Contudo, a última frase de Cristo é peremptória: “a tua fé te salvou”. Esse que voltou e agradeceu, além de ter sido curado da lepra foi salvo, ao passo que os outros nove não foram: salvos. É de fato muito sutil isso, porém, faz muita diferença.

Que nunca percamos a sensibilidade de reconhecer tudo o que Deus já fez por nós, e voltar a acrescentar em nossas orações: “muito obrigado!” Oxalá que isso seja tão recorrente quanto ao que se pede...

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sexta-feira, 22 de junho de 2012

ASSIM ENTENDO A PALAVRA: O NOSSO PIOR INIMIGO


NARCISO (1594-1596) DE CARAVAGGIO


Qual seria o nosso pior inimigo?

Quando retrocedemos no tempo e analisamos com calma a passagem capital da queda, em Gênesis 3: 4-6 temos o seguinte texto: “Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal. Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos seus olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu”.

Notem a sutileza de como a serpente trata com Eva, pois em hipótese alguma ela sugere a Eva: “Venha me seguir”. Pelo contrário, a serpente sabia que entre Deus e ela (serpente) nós ficaríamos com Deus, agora entre Deus e o nosso (eu) nós tendemos ao nosso eu. E nessa tentação ela sugere a Eva que seja dona do seu próprio “nariz” que conheça o bem e o mal e o pior de tudo: “Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus...”

Ora e isso já não nos é o suficiente para destruição? Pois quando deixamos Deus de lado e nos arvoramos a querer ser igual a Ele e seguimos por conta própria nosso caminho, é certo que nossa destruição está há um passo. Nisso a serpente descansa feliz, pois ela nem sequer quer que nós a sigamos, pelo contrário, basta que sigamos a nós mesmos, ao nosso ego inflamado e isso por si só é o caminho para o fim, pois apartados de Deus, seguindo o nosso (eu) para onde podemos ir?

A tentação gira em torno de algo que é próprio e entranhado na natureza humana: o desejo. Somos seres que desejam a todo instante e raramente nos contentamos com o que temos. A melhor definição de desejo que tenho conhecimento está em Platão, no livro: O banquete. Em meio à refeição acabam escolhendo um tema para falarem, no caso a pauta era o amor. Sócrates, por cuja boca Platão costuma se exprimir dá a seguinte resposta: "O amor é desejo, e o desejo é falta". E Platão reforça: “O que não temos, o que não somos, o que nos falta, eis os objetos do desejo e do amor”. Essa idéia atravessa a Grécia antiga e chega até nós no século XXI. Um outro exemplo, é Sartre: “O homem é fundamentalmente desejo de ser” e “o desejo é falta”.

Na medida em que Platão tem razão, ou na medida em que somos platônicos (mas no sentido de um platonismo espontâneo), na medida em que desejamos o que nos falta, é impossível sermos felizes. Por quê? Porque o desejo é falta, e porque falta é um sofrimento. Como você pode querer ser feliz se lhe falta, precisamente, aquilo que você deseja?

Voltemos a Eva, para nos lembrar que ela e Adão poderiam comer de todo o fruto das árvores do jardim, exceto: do fruto da árvore que estava no meio do jardim, pois Deus disse para dela não comer e nem tocar, para que não morressem. E o que foi que Eva e Adão fizeram com a referida árvore movidos pelo desejo?

Pensemos, é muito fácil desejar o que não tenho. O que nos falta é desejar o que já temos o que não nos falta! O que proponho é uma inversão de desejos. Fazer sossegar a nossa alma e principalmente conhecer a nós próprios, bem como a nossa natureza humana e querer aquilo que já possuo; com isso pouparíamos nossa alma de muitos dissabores na vida.

Tomás de Kempis no excelente livro: Imitação de Cristo, possivelmente escrito em 1441, dá o tom: “Que mais rude combate haverá do que procurar vencer-se a si mesmo? E este deveria ser nosso empenho: vencermo-nos a nós mesmos, tornarmo-nos cada dia mais fortes e progredirmos no bem.”

Mas voltemos à pergunta inicial: “Qual seria o nosso pior inimigo?”

Simples assim: nós mesmos! E eu não tenho dúvida disso...

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