Leitores desse blog, no dia 17/03/2013 tive a honra de ministrar uma palestra na livraria e editora: Filoczar, do meu amigo César Mendes da Costa, me senti honrado com o convite e foi muito prazeroso partilhar desse pão sagrado: literatura. O projeto é termos uma palestra por mês, e já estou a todo vapor produzindo a 2º aula, que será ministrada agora em abril/2013.
Abaixo ipsis litteris segue toda a minha fala da palestra inaugural. Divirtam-se...
Saibam
que todos são bem-vindos, para esse nosso encontro inicial do: CAFÉ
LITERÁRIO EDITORA FILOCZAR: “Aos que desejam navegar pelos oceanos literários,
um porto se oferta...”
Projeto esse que visa refletir sobre os grandes mestres da
literatura universal e suas obras, proporcionando a todos um espaço
democrático, para que todos opinem, dialoguem e questionem...
E como dizia Márcio Catunda: “Um gênio conversa com o espírito dos livros. E o acervo suscita
viagens insólitas”. O meu desejo é um só: que aqui possamos conversar com
os espíritos dos livros e que possamos ter muitas viagens inacreditáveis e
extraordinárias, através das obras dos grandes mestres da literatura, sendo
cada encontro, apenas uma breve estadia no porto, para que cada um ao sair
daqui navegue pelos oceanos literários. Nesse sentido, a presença de todos vocês
aqui é uma honra para mim e para a Editora Filoczar, e nesse primeiro
encontro, o nosso tema é:
GABRIEL GARCÍA
MÁRQUEZ: VIDA, OBRA E TEMPO COM TINTAS DO REALISMO MÁGICO.
Na
epígrafe do livro autobiográfico do Gabriel García Márquez, chamado: “Viver para Contar”, temos a seguinte
frase: “A vida não é o que a gente viveu, e sim o que a gente recorda, e como
recorda para contá-la.” E para nós entendermos um pouco sobre a obra do
Gabriel, cujo apelido é Gabo, é necessário contar seu passado, que será parte
fundamental para compreendermos toda sua obra; pois ela é uma extensão da sua
própria vida.
I – ORIGENS
- Nasce em 06 de março de
1928, em Aracataca (costa norte da Colômbia), portanto, hoje ele têm 82
anos;
- Sua cidade viveu seu
verdadeiro apogeu em 1910, com a febre da banana – quando a empresa
americana UNITED FRUIT COMPANY, se estabelece nesse povoado que é
revigorado com sua presença;
- Afluição de pessoas de
todas as raças e partes da Colômbia, para essa cidade, atraídas pelo
progresso da banana; que constituíram-se mais tarde a base para alguns de
seus personagens, como por exemplo: ciganos e circenses;
- Seu pai Gabriel Eligio García era
telegrafista e Luisa Santiaga Márquez, como era costume da época não tinha
nenhum ofício, mas distinguia-se das demais moças do povoado, por sua
beleza. E além disso, era moça de família e filha do Coronel Nicolas
Ricardo Márquez Mejía. Que desde do início foi contra a relação dos dois.
Uma pela opção partidária do pretendente, que era Conservador, e o Coronel,
tinha lutado inúmeras guerras pelo partido liberal. E além disso, o
pretendente era telegrafista, um cargo que não era o sonhado pelo Coronel
para sua filha;
- Mesmo tendo afastado a
filha para povoados distantes e remotos, e como o pretendente não
desistiu, pois mantinha contato com a noiva, através da rede de
telegrafistas espalhados por toda a Colômbia, que passavam seus recados de
amor a ela; e devido a toda sua insistência e perseverança, os dois
finalmente conseguiram se casar. E foram morar em Riohacha, uma velha
cidade, às margens do Mar das Antilhas;
- A pedido do Coronel, Luisa
deu à luz ao seu primeiro filho em Aracataca. E talvez para apagar os últimos
remorsos do ressentimento provocado pelo seu casamento com o telegrafista,
deixou o recém-nascido aos cuidados dos avós;
- Foi assim que Gabriel
García Márquez cresceu naquela casa em Aracataca, com os cuidados dos avós
paternos e sendo o único menino em meio a inúmeras mulheres;
- Seus avós foram os responsáveis pela sua
criação. Sua avó: Dna. Tranquilina, transitava pela realidade e pelo
irreal com muita naturalidade e tranqüilidade, e tudo isso terá um impacto
enorme na obra de Gabriel; eis um breve relato disso, extraído do livro: “Cheiro de Goiaba – Conversas com
Plínio Apuleyo Mendoza”, na pág. 8:
“A avó governava
a casa, uma casa que depois ele recordaria como grande, antiga, com um pátio
onde ardia as noites de muito calor, o aroma de um jasmineiro, e inúmeros
quartos onde suspiravam às vezes os mortos. Para Dna. Tranquilina cuja família
provinha de Gaajira, uma península de areais ardentes, de índios,
contrabandistas e bruxos, não havia uma fronteira muito definida entre os
mortos e os vivos. Referia-se a coisas fantásticas como ordinários
acontecimentos e ficando cega, aquela fronteira entre os vivos e os mortos
desaparecidos fez-se cada vez mais tênue, de modo que acabou falando com os
mortos e escutando-lhes as queixas, os suspiros e os prantos.”
- E usava desse tipo de
argumentos para amedrontar o jovem Gabriel, ou seja, que as tias e tios
mortos, iriam visitar ele caso fizesse alguma malcriação;
- Além da avó, tinha as tias
(Francisca, Petra e a Elvira), todas mulheres fantásticas e com enormes
aptidões premonitórias. Cito o exemplo da sua tia Francisca, também
relatada no livro citado, na pág.11: “A
tia Francisca Simonosea por exemplo, era uma mulher forte e infatigável,
sentou-se um dia para tecer a sua mortalha.
– Por que está fazendo uma mortalha? – perguntou-lhe o jovem Gabriel. –
Porque vou morrer, menino – respondeu ela. E com efeito, quando terminou
sua mortalha deitou-se na cama e morreu.”
- Dessa forma e naturalmente,
e por serem os únicos homens, o personagem mais importante da casa era o
avô de Gabriel. Coronel Márquez, veterano de guerra e liberal de partido,
e sua última guerra que participou foi em 1899 e terminou em 1901, deixou
tombado nos campos de batalha 100 mil mortos, do partido liberal que era o
seu, que lutou contra o partido conservador, que na época era situação;
- Então entre o avó e o neto
nasceu uma amizade singular. E seu avô fez saber tudo das guerras que
participou ao jovem Gabriel, inclusive a mais sangrenta e trágica de toda
a Colômbia, chamada Guerra dos Mil Dias;
- O avô deu ao seu neto a
maior importância. Sempre respondendo a tudo que lhe perguntava, mas num
dia que o avô, chateado por não ter conseguido explicar uma palavra ao
neto, lhe deu um dicionário de presente. E lhe disse: “Aqui estão todas as palavras do mundo”. A curiosidade foi
tanta que ele folheou o dicionário como se fosse um romance, em ordem
alfabética, sem entender nada. O tempo passou célere, e ele aprendeu a
ler, e dedicou-se a outra empreitada, ou seja, consumir um livro que
encontrou numa arca empoeirada. Um parente que o viu realizar a façanha
com tanta perseverança concluiu: “Esse
menino vai ser escritor.” O livro que ele encontrará na arca era: AS
MIL E UMA NOITES. Já havia sido capturado pelo fascínio de contar;
- A morte do âvo, quando
Gabriel tinha apenas 8 anos de idade, foi o fim de sua primeira infância;
o fim de Aracataca também. Foi enviado a capital do país, para viver com
seus pais. E só retornaria para Aracataca já adulto; com sua mãe quando
ela estava em verdadeiras ruínas, pois a próspera United Fruit Company
tinha ido embora. Veio com sua mãe para vender a casa, e quando chegou a
cidade um diálogo em especial lhe marcou, entre sua mãe e uma velha
conhecida, que não lhe saiu da mente: -
Comadre! Exclamou, levantando-se. As duas se abraçaram e começaram a
chorar ao mesmo tempo. “Ali, daquele reencontro, saiu o meu primeiro
romance.” disse Gabriel García Márquez.
II – OS SEUS
Tem um poema muito
interessante de Lya Luft, que consta no livro: “Perdas & Ganhos”, na
página 20, que diz assim:
“Frutos
de enganos ou de amor,
nasço de
minha própria contradição.
O
contorno da boca,
a forma
da mão, o jeito de andar
(sonhos e
temores incluídos)
virão desses que me formaram.
Mas o que
eu traçar no espelho
há de se
armar também
segundo o
meu desejo.
Terei meu
par de asas
cujo vôo
se levanta desses
que me dão a sombra onde eu cresço
- como,
debaixo da árvore,
um caule
e sua
flor
O que quero aplicar aqui ao citar para vocês esse poema da
Lya Luft, é que toda obra de Gabriel, se assenta sob um tripé, a saber: a casa
de seus avós em Aracataca, sua avó (mundo fantástico) e avô (mundo real); ou
seja, os que lhe criaram e seu contexto de mundo, vejamos o que ele mesmo diz sobre esses
pontos:
Casa:
1 – “Minha lembrança
mais viva e constante não é das pessoas e sim a própria casa de Aracataca onde
morava com meus avós. É um sonho repetitivo que ainda persiste. Mais ainda:
todo dia da minha vida acordo com a impressão, falsa ou real, de que sonhei que
estou nessa casa. Não que voltei a ela, mas sim que estou lá, sem idade e sem
nenhum motivo especial, como se nunca tivesse saído dessa casa velha e enorme.”
Avó – Dna. Tranquilina:
2 – “Não consigo
definir muito bem, mas me parece que aquela angústia tinha uma origem concreta
e que à noite se materializam todas as fantasias, os presságios e as evocações
de minha avó. Essa era a minha relação com ela: uma espécie de cordão invisível
mediante o qual nos comunicávamos ambos com um universo sobrenatural. De dia, o
mundo mágico da minha avó me era fascinante, eu vivia dentro dele, era o meu
mundo próprio. Mas à noite me causava terror.”
Avô – Coronel
Nicolas
3 – “Meu avô, em
compensação, era para mim a segurança absoluta dentro do mundo incerto da minha
avó. Só com ele desaparecia a angústia e me sentia com os pés na terra e bem
estabelecido na vida real”.
- De uma maneira ou de outra,
boa parte de toda sua obra se debruça e bebe dessa fonte, estabelecida
sobre esse tripé: casarão de Aracataca, avó e avô. E sua obra se expande a
partir desse universo. Vemos um pouco disso, aqui no Brasil no mestre
Graça, como era chamado Graciliano Ramos, em: “Vidas Secas”. Sua obra mais conhecida e aclamada. Os
personagens que compõem a obra, são feitos a partir da sua própria família
e parentes;
- Da sua relação com seus
pais, pouca coisa ficou nele. Devido ao distanciamento dos estudos, pois
com 12 anos, foi para um colégio com regime de internato. E só os via nas
férias, que não duravam mais do que 15 dias, e nunca eram mais do que uma
vez por ano.
III – O OFÍCIO
Eu
gosto muito da frase de Sir. Winston Churchill, quando ele se refere ao ofício
de escritor:
“Escrever um livro
é uma aventura. Principia um brinquedo e um gosto. Vira um amante, depois um
tutor, depois um tirano. Na fase final, já conformado em ser escravo você o
mata e arremessa o corpo ao público.” E
não foi diferente com Gabriel, que disse que começou a escrever por um acaso,
e: “Depois caí na armadilha de continuar
escrevendo por prazer e depois na outra armadilha de que nada mais me agradava mais
no mundo do que escrever.”
O
ponto de partida de um livro para que Gabriel o construa é uma imagem visual,
exemplos:
1 – “A sesta da terça-feira”, que ele considera seu melhor conto, nasceu da visão de uma
mulher e de uma menina vestidas de preto e com um guarda-chuva preto, andando
sob um sol ardente num povoado deserto;
2 – “Ninguém escreve ao coronel”, livro, que nasceu da imagem de um homem esperando uma
lancha no mercado de Barranquilla. Esperava-a com uma espécie de aflição
silenciosa. Anos depois, o próprio Gabriel se encontrava em Paris esperando uma
carta, talvez um cheque, com a mesma angústia e se identificou com a lembrança
daquele homem;
3 – “O enterro do diabo”, é um livro, que nasceu da imagem de um velho que leva o
neto a um enterro;
4 – A imagem
visual do seu livro mais aclamado: “Cem anos de solidão”, é um velho
que leva um menino para conhecer o gelo, exibido como curiosidade de circo. Que
no seu caso, aqui foi seu próprio avô que fez isso com ele, quando o mesmo era
criança.
Nota-se também que essa imagem visual, sempre
parte de uma realidade concreta. E ele mesmo diz que a melhor fórmula literária
pé sempre a verdade. Aprendeu isso de Ernest Hemingway, que é uma de suas
influências, ele disse o seguinte: “A
verdadeira ficção deve provir de tudo o que a gente já conheceu, viu e sentiu
ou aprendeu.” Portanto, ele sempre parte desse pressuposto, e a partir
desse alicerce de verdade, ao desenvolver suas obras ele acrescenta ficção, que
atinge seu mais alto nível, quando confunde o leitor, que não consegue saber
onde acaba e onde começa a ficção e a realidade/verdade, pois ambas estão
intrinsecamente ligadas, e andam sob uma linha muito tênue. Eis o grande ponto
sublime que todo escritor busca. E isso Gabo é notável e grande mestre.
Mario
Vargas Llosa, tem uma frase que representa bem o universo ficcional de García
Márquez, ele disse assim: “Os temas é que
escolhem o escritor. Tenho sempre a sensação de que havia certas histórias que
eu tinha de escrever, que não havia jeito de evitá-las.”
Por exemplo, Gabriel passou 15 anos pensando e estudando
para escrever: Cem anos de solidão. E
17 anos para escrever o Outono do
Patriarca e notáveis 30 anos para escrever: Crônica de uma morte anunciada. Que foram temas distintos que lhe
aconteceram ou que tomou conhecimento ao longo de sua vida, e dos quais mais
tarde ganharam corpo nesses romances. Ou seja, histórias inevitáveis que
resistiram ao tempo, sem sombra de dúvida. E ele mesmo diz que não se interessa
por uma idéia que não resista a muitos anos de abandono. E sua obra suspira
isso por si só.
IV – FORMAÇÃO
Gabriel
foi para uma escola em regime de internato, como bolsista, desde muito cedo. E
como pouco via seus pais, seus único consolo foi à leitura, ao que ele mesmo se
refere a esse época: “Encontrei nos
livros a única maneira de fugir de uma realidade tão sombria. No vasto
dormitório do colégio, liam-se livros em voz alta. A Montanha Mágica, O
Corcunda de Notre Dame, O Conde de Monte Cristo. Aos domingos, sem ânimo de enfrentar o frio e a tristeza daquele
povoado andino, ficava na biblioteca do colégio lendo romances de Júlio
Verne e de Salgari e os poetas espanhóis
ou colombianos cujos versos apareciam nos textos escolares.”
Tudo mudou numa noite em que leu A Metamorfose, de Kafka. Chegou à pobre pensão de estudantes onde
morava, no centro da cidade com aquele livro que um colega acabava de lhe
emprestar. Tirou o paletó e os sapatos, deitou-se na cama, abriu o livro e leu:
“Quando Gregor Samsa acordou certa manhã,
após um sono tranqüilo, viu-se em sua cama transformado num monstruoso inseto.”
Gabriel fechou o livro, tremendo: “Merda!”
pensou, “então se pode fazer isso”. No
dia seguinte escreveu o seu primeiro conto. E se esqueceu dos estudos. E seu
deu conta que Kafka, em alemão, contava as mesmas coisas da mesma maneira que
sua avó. Daí teve o insight de trazer a tona tudo o que
ouvira de suas tias, avó e avô; e deu vida ao casarão e a cidade de Aracataca
do seu tempo de infância.
Naturalmente,
seu pai não entenderia uma decisão tão heróica. O antigo telegrafista esperava
que o filho conseguisse o que ele não pode: obter um título universitário.
Assim, ao saber que Gabriel descuidava dos estudos, começou a considerá-lo
sombriamente como um caso perdido.
Regressou
à costa da Colômbia aos 20 anos de idade. Tendo deixado o curso de direito
inacabado. Em Cartagena, conseguiu emprego na redação de um jornal, El
Universal, como redator de notas. E pode se dedicar ao que mais gostava –
escrever.
Viveu
nessa época rodeado de amigos, que como ele eram apreciadores de literatura e
leitores inveterados. Esse grupo, foi chamado de “o grupo de Barranquilla”, que
eram farristas desmedidos, picados pela literatura, que Gabriel encontrou em
Barranquilla, por volta dos anos 50. Atualmente esse grupo é estudado nas
universidades da Europa e EUA, por especialistas da literatura
latino-americana. E seus autores prediletos eram: James Joyce, William Faulkner,
Ernest Hemingway e Virginia Woolf, essa última aliás, ele disse mais tarde que
um conto seu Mrs. Dalloway, lhe trouxe as pistas para escrever seu primeiro
livro: “O enterro do diabo”.
Resumindo: (1) Salgari e Júlio Verne e os poetas lidos no
internato; (2) Kafka e os romancistas russos e franceses descobertos na sua
pensão de estudante; (3) os gregos que estudou em Cartagena, quando chegou lá;
e por fim (4) os norte americanos e ingleses que seus amigos de Barranquilla
lhe revelaram.
Assim, quando regressou daquela viagem realizada com sua
mãe a Aracataca, não só tinha alguma coisa para dizer; mas, à força de conviver
com tantos autores, ao longo de uma adolescência e de uma primeira juventude de
solidão e busca, sabia também como dizer.
V – REALISMO MÁGICO
Para o
próprio Gabriel, é fato que o mesmo encara um bom romance, como uma
transposição poética da realidade. Destarte, ele afirma que um romance é uma
representação cifrada da realidade, uma espécie de adivinhação do mundo.
Contudo, a realidade que se maneja num romance é diferente da realidade da
vida, embora se apóie nela. Como acontece com os sonhos. E nos seus romances
não há uma linha que não esteja apoiada e baseada na realidade.
E o Gabriel, faz parte de uma escola, que chamamos de: “REALISMO MÁGICO” que se
desenvolveu fortemente nas décadas de 60 e 70, como produto de duas visões que
conviviam na América Hispânica e também no Brasil: a cultura da tecnologia e a
cultura da superstição. Surgiu também como forma de reagir, através das
palavras, contra as ditaduras da região. Ele pode ser definido como a
preocupação estilística e o interesse de mostrar o irreal ou estranho como algo
cotidiano e comum. Sua finalidade não é a de suscitar emoções, mas sim de
melhor expressá-las e é, sobretudo, uma atitude frente à realidade. Uma das
obras mais representativas deste estilo é “Cem anos de solidão”, de Gabriel
García Márquez.
Os
seguintes aspectos estão presentes em muitos romances e contos do realismo
mágico, mas não necessariamente estão todos presentes em todas as obras desta
escola. Do mesmo modo, obras pertencentes a outras escolas podem apresentar
algumas características dentre aquelas aqui listadas:
· Conteúdo de elementos
mágicos ou fantásticos percebidos como parte da “normalidade” pelos personagens;
·
Elementos mágicos
algumas vezes intuitivos, mas nunca explicados;
·
Presença sensorial
como parte da percepção da realidade;
· O tempo é percebido
como cíclico, como não linear, seguindo tradições dissociadas da racionalidade
moderna;
·
O tempo é distorcido,
para que o presente se repita ou se pareça com o passado;
·
Transformação do comum
e do cotidiano em uma vivência que inclui experiências sobrenaturais ou
fantásticas.
VI – OBRAS
Antes
de falar sobre algumas das principais obras do Gabriel García Márquez, e
finalizar a apresentação, creio que a frase do Erico Verissimo, que tem uma
obra que se enquadra dentro do realismo mágico, a saber: “Incidente em Antares” vem bem a calhar, dentro do universo
ficcional do Gabo, ela diz assim: “A
verdade, porém, é que ninguém se livra de suas lembranças, nem das velhas
idiossincrasias, malquerenças e desejos recalcados. E, quando se trata dum
romancista, essas impurezas mais tarde ou mais cedo acabam aparecendo na face
ou na alma de seus personagens.” E justamente isso que vemos correntemente
em toda a obra do Gabriel.
Outras das crenças do Gabriel, é que ele afirma
que em geral, um escritor só escreve um único livro, embora esse livro apareça
em muitos tomos, com títulos diversos. E no seu caso, poderíamos dizer que o seu
livro é sobre a SOLIDÃO. O personagem central de “O enterro do diabo” é um homem que vive e morre na mais absoluta
solidão. A solidão está também no personagem de “Ninguém escreve ao coronel” onde temos o coronel, com sua mulher e
seu galo, esperando toda sexta-feira uma pensão que nunca chega. E está no
prefeito do conto “O veneno da
madrugada”, que não consegue ganhar a confiança do povo e experimenta, à
sua maneira, a solidão do poder. Solidão no patriarca, em o “Outono do patriarca” e obviamente em “Cem anos de solidão”.
Sendo assim, irei falar sobre suas obras,
começando por: CEM ANOS DE SOLIDÃO –
um comboio carregado de cadáveres. Uma população inteira que perde a memória.
Mulheres que se trancam por décadas numa casa escura. Um homem que arrasta atrás
de si um cortejo de borboletas amarelas. São esses alguns dos elementos que
compõem o exuberante universo deste romance, no qual se narra a história da
cidade de Macondo e de seus inesquecíveis habitantes. E como o próprio Gabriel,
descreve o protagonista de Cem anos de Solidão, inspirado em seu avô: “O coronel Aureliano Buendía promoveu 32
revoluções armadas e perdeu todas.” Estão aqui ao mesmo tempo o humor
funesto com que trata da impotência do homem e o tom de extrema naturalidade
que usa para narrar fatos inverossímeis. Publicado em 1967, o romance conta a
história dos Buendía, família condenada por uma força inexplicável a viver um
século de solidão. Sucessivas gerações de homens e mulheres marcados por sinais
trágicos fazem mover uma engrenagem de repetições de comportamentos obsessivos
e desilusões. O pano de fundo é o dos sangrentos enfrentamentos entre os
conservadores e liberais, que cindiram a Colômbia a partir do século 19.
Trecho de Cem Anos do Solidão: “Aureliano Buendía havia de recordar aquela
tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo. (...) O mundo era tão
recente que muitas coisas careciam de nome e para mencioná-las se precisava
apontar o dedo. (...) “As coisas tem nomes próprios”, apregoava o cigano com
áspero sotaque, “tudo é questão de despertar a alma”.
O AMOR NOS TEMPOS
DO CÓLERA – de 1985, Fermina Daza e
Florentino Ariza se apaixonam ainda adolescentes e protagonizam um amor que se
constrói, inicialmente, por uma febril correspondência. Ambos são impedidos de
viver esse amor juvenil, pois o pai de Fermina Daza exige que ela faça uma
longa viagem. Os telégrafos servirão de auxílio para que o diálogo entre os
apaixonados não se interrompa. Amor,
então constituído apenas por palavras, irá sucumbir ao regresso de Fermina
Daza. No momento em que a jovem retorna e vislumbra a realidade sobreposta à
imagem idealizada de Florentino Ariza acontece o desencanto e a ruptura. Ela,
então, se casará com o médico Juvenal Urbino, com quem viverá durante cinqüenta
anos. Naturalizando o sobrenatural ou sobrenaturalizando as leis naturais, o
autor fará Florentino Ariza esperar por Fermina Daza por 50 anos para que os
dois possam, enfim, subir e descer o rio Magdalena, aprisionados pelo amor e
por um barco condenado ao isolamento dos tempos do cólera.
Trecho do
Amor nos Tempos do Cólera: “O drama de
Florentino Ariza enquanto foi calígrafo da Companhia Fluvial do Caribe era que
não podia afastar seu lirismo porque não deixava de pensar em Fermina Daza, e nunca
aprendeu a escrever sem pensar nela. Depois, quando o passaram a outros cargos,
sobrava-lhe tanto amor por dentro que não sabia que fazer com ele, e dava-o de
presente aos enamorados implumes escrevendo para eles cartas de amor no Portal
dos Escrivões”.
CRÔNICA DE UMA
MORTE ANUNCIADA – De 1981, depois de seis
anos de jejum literário, Gabo publicou esse livro, uma novela que ocupa um
lugar central na trajetória literária sua. Trata-se de um relato conciso e
envolvente que surpreende o leitor pelo modo como é narrado: um crime tantas vezes
anunciado, até ser cometido com crueza e crueldade à vista de todos. A trama da
Crônica explora um dos motivos mais recorrentes da prosa de ficção, que vem
destes romances de cavalaria: uma história de amor em que a honra perdida só
pode ser reparada por meio da vingança. É a história de uma noiva que na
primeira noite de casada, é devolvida a casa de seus pais. E seus irmãos,
querem saber quem foi que fez isso, para se vingarem da honra perdida. Desde as
primeiras páginas sabemos quem é a vitima e quem são os assassinos. Ou seja, o
leitor se depara com uma revelação que contrária a uma das convenções da novela
enquanto gênero, pois não há uma reviravolta na trama. A revelação, de chofre,
da identidade do assassino desvia o interesse e a curiosidade do leitor para
outras indagações: como tudo isso pode ter acontecido? Por que esse crime
bárbaro que todos sabem (ou pensam) que vai acontecer não é evitado? Ou melhor,
não pode ser evitado? Paro por aqui e espero que vocês fiquem curiosos em ler a
obra, atrás dessas questões...
Trecho do
livro: “A versão corrente, talvez por ser
a mais perversa, era que Ângela Vicário estava protegendo alguém a quem, de
verdade amava e tinha escolhido o nome de Santiago Nasar porque nunca pensou
que os irmãos se atreveriam a enfrentá-lo. Eu mesmo tentei arrancar-lhe esta
verdade de, quando a visitei pela segunda vez, com todos os meus argumentos em
ordem, mas ela só levantou os olhos do bordado para contestá-los. – Não mexa
mais nisso primo – disse-me. – Foi ele.
Todo o resto ela
contou sem reticências, até a desgraça da noite de bodas.”
O OUTONO DO
PATRIARCA – é um livro sobre o enigma
humano do poder, sobre a sua solidão e sua miséria. E Gabriel, diz que é uma
das suas obras mais ousadas, pois se torna um poema em prosa. E essa é a
sensação que temos, quando lemos esse livro. Ele usou de pano de fundo, para a
construção dessa obra, as biografias de todos os ditadores da América Latina,
seus feitos, megalomanias e delírios. E teve essa idéia de construir esse
livro, quando esteve na Venezuela, como repórter, e presenciou a queda do poder
do ditador Pérez Jiménez, que fugiu num avião, dando fim a ditadura no país
naquele momento.
Trecho: “Assim o encontraram nas vésperas do seu
outono, quando o cadáver era na realidade o de Patrício Aragonês, e assim
voltamos a encontrá-lo muitos anos mais tarde em uma época de tantas incertezas
que ninguém podia submeter-se à evidência de que fosse seu aquele corpo senil
carcomido de urubus e danificado de parasitas do fundo do mar”.
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